Uma mulher de 41 anos, moradora de São José do Rio Preto (SP), denuncia ter sofrido abuso sexual infantil do tio, 34 anos após o crime.
Nascida em uma família simples, Regiane Oliveira contou ao g1 que teve a infância marcada pela pureza e alegria, mas viu sua realidade mudar ao se tornar mais uma vítima da violência sexual no âmbito familiar, o que, segundo ela, deixou resquícios como a dependência química.

O abuso começou quando ela tinha oito anos e só terminou aos 12, sempre acompanhado de ameaças do suspeito, que morava na mesma casa que ela. Assim como muitas vítimas, ela sentia culpa e medo.
Durante atendimento psicológico no Instituto Nação Valquírias, referência no acolhimento de mulheres em São José do Rio Preto, Oliveira teve coragem de “tocar na ferida” e revelar os abusos sofridos ao longo de quatro anos, ou seja, durante parte de sua infância e adolescência.
“Os anos passaram, mas as marcas continuavam ali. Vieram crises emocionais, tristeza profunda e momentos em que eu percebi que não estava conseguindo lidar com tudo aquilo sozinha”, lembra.
Dependência química após o trauma
Após buscar ajuda, Regiane entendeu que, quando se carrega um trauma tão profundo sem falar sobre ele, esse sofrimento transparece em outros comportamentos. No seu caso, resultou em uma dependência química na fase adulta. Ela relata que buscou nas drogas uma forma de anestesiar a dor por não conseguir superar.
“Eu cresci carregando medo, vergonha e um silêncio muito pesado dentro de mim. Afetou minha autoestima, meus relacionamentos e minha saúde emocional. Durante muitos anos, eu vivi como se estivesse apenas sobrevivendo, tentando lidar com uma dor que eu não sabia como explicar para ninguém.”
Na época em que aconteceram os abusos, falar sobre o assunto era quase impossível, principalmente entre os familiares.
“Hoje, eu acredito que existem mais informação e mais espaços de apoio. Ainda assim, muitas vítimas continuam com medo. Por isso é tão importante que a sociedade continue falando sobre esse tema”, relata Oliveira.
É possível superar?
Regiane decidiu buscar ajuda ao perceber que não queria viver presa ao passado. Enfrentar a própria história foi um passo difícil, mas essencial para iniciar a reconstrução de sua vida. O tratamento psicológico, a terapia e o apoio de pessoas próximas têm sido fundamentais nesse processo.
“Durante muitos anos, eu vivi em silêncio, e o silêncio pesa muito. Quando você começa a falar, começa também a se libertar”, afirma.
Ela conclui dizendo que, 34 anos depois, pretende denunciar o caso à polícia. Para Oliveira, agora, se trata de dignidade e de justiça.
Aumento de estupros
Na região de São José do Rio Preto, o número de estupros registrados em janeiro de 2026 aumentou mais de 50% em relação ao mesmo mês no ano de 2025. Os casos de estupro de vulnerável cresceram mais de 70%. Juntos, os crimes tiveram alta de 66%, segundo a Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP).
O crescimento nos registros levanta a discussão se as vítimas estão tendo mais coragem de buscar ajuda ou se há, de fato, maior incidência desse tipo de abuso.
Amanda Oliveira, fundadora da Nação Valquírias, afirma que o instituto já atendeu diversas mulheres alvos de violência dentro de casa. Segundo ela, em alguns casos, a pessoa aguarda anos para conseguir denunciar.
“Elas [mulheres] cresceram acreditando que não seriam acreditadas, que seriam culpabilizadas ou que falar poderia destruir a própria família. O silêncio é uma das marcas mais profundas da violência”, afirma.
O número de mulheres que procuram o Instituto Nação Valquírias em busca de acolhimento, orientação e apoio para reconstruir suas vidas é cada vez maior. Para Amanda, isso evidencia uma realidade marcada pela violência estrutural.
Em meio a essa situação, há um crescente movimento de vítimas que encontram coragem para romper o silêncio. Amanda ressalta que essa mudança é fundamental, já que, historicamente, o silêncio protege somente o agressor, nunca a vítima.
Perfil das vítimas
Procurada pela reportagem, a coordenadora da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de São José do Rio Preto, Margarete Franco, explica que violência sexual contra vulnerável é qualquer tipo de relação abusiva contra menor de 14 anos, pois entende-se que ainda não há discernimento formado para consentimento.
Ela explica que a maioria dos casos ocorre em ambiente doméstico, um local que deveria ser de acolhimento e segurança, o que muitas vezes confunde a vítima, que vê no familiar uma relação de confiança. Por isso muitas demoram anos para se sentir encorajadas a denunciar.
A delegada defende que a expansão dos recursos de apoio às vítimas é fundamental para dar mais segurança.
Hoje, há programas na área da saúde que garantem atendimento psicológico, fornecimento de medicamentos e atendimento na rede pública para o procedimento de aborto em casos de gravidez indesejada proveniente de estupro, sem necessidade de autorização judicial devido à natureza do crime.
Em Rio Preto, o Projeto Acolher no Hospital de Base oferece atendimento médico e psicológico às vítimas de crimes contra a dignidade sexual, principalmente estupros.
Fonte: G1