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Misoginia e racismo: socióloga analisa impacto do projeto de lei

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educação sexista deve ser repensada, opina a profissional

Por décadas, as mulheres foram reduzidas a bordar, cozinhar, maternar e manter o perfil de mulher sem voz que dependia completamente do cônjuge para absolutamente tudo. Já as que ousaram viver livremente, enfrentaram desafios penosos e, alguma medida, aprenderam às duras penas a ser como a sociedade patriarcal ditava. Por mais que, em 2025, estejamos vendo mulheres ocupando lugares que até tempos passados seriam impossíveis do “sexo frágil” ocuparem, muito ainda se vê, daquelas que perderam suas vidas ou ganharam hematomas profundos nas garras dos homens que não respeitam suas escolhas e decisões. A misoginia é real, basta ver perfis comandados por líderes do movimento “red pill”, “incels” ou mesmo dos que se denominam “homens de valor”. Contra fatos, não há argumentos, mulheres são mortas, estupradas, ameaçadas, ridicularizadas, aliciadas, massacradas e diminuídas mesmo em situações veladas, culturalmente aceitas em meio às raízes profundas do patriarcado.

Entretanto, um projeto de lei em tramitação na Câmara dos Deputados prevê que a misoginia — entendida como desprezo e hostilidade contra mulheres — seja equiparada ao crime de racismo. A proposta reacende discussões sobre os limites da liberdade de expressão, o papel do Estado na proteção de grupos vulneráveis e a necessidade de reconhecer que o ódio direcionado às mulheres não é um comportamento banal, mas uma forma de discriminação que exige resposta legal rigorosa.

A socióloga Lenina Vernucci da Silva avalia que a medida representa um avanço simbólico e histórico. Para ela, a opressão feminina é uma das mais antigas formas de violência social, presente em diferentes culturas e períodos. “É uma reparação importante. Como já apontava Simone de Beauvoir, as mulheres sempre foram tratadas como o segundo sexo. Mesmo em comunidades matrilineares, a lógica patriarcal se mantinha”, observa.

Patriarcado e reconhecimento jurídico

Na visão da especialista, a demora em criminalizar a misoginia está ligada à naturalização dos papéis sociais impostos às mulheres. “Muitas dessas violências são vistas como questões privadas, fora do alcance do Estado. Falta reconhecer que as mulheres constituem um grupo historicamente marginalizado”, afirma.

Caso a proposta seja aprovada, Vernucci acredita que a judicialização poderá fortalecer a luta contra a violência de gênero, funcionando como instrumento de punição e dissuasão. Ainda assim, ela ressalta que a transformação não pode se limitar ao campo jurídico: “É fundamental que os movimentos feministas continuem pressionando por mudanças na educação sexista, e não apenas pela punição.”

Espaços de reprodução da misoginia

A socióloga destaca que a misoginia se manifesta em diversos ambientes institucionais — do mercado de trabalho às redes sociais e ao sistema educacional — o que dificulta mensurar sua extensão. “O Estado deveria atuar como referência ética, mas nos últimos anos houve retrocessos, com lideranças reforçando discursos machistas e enfraquecendo políticas voltadas às mulheres”, critica.

Sobre o papel da mídia, Vernucci aponta que a cultura popular pode tanto reproduzir quanto desafiar padrões misóginos, enquanto os veículos de comunicação tendem a refletir os interesses dos grupos dominantes. “O machismo atravessa todas as esferas culturais e se perpetua pela impunidade. O feminismo avançou no diálogo com mulheres, mas é urgente ampliar esse debate com os homens, disseminando uma educação feminista também voltada a eles”, conclui.

Lenina Vernucci da Silva é Mestre em Sociologia e docente efetiva da rede pública estadual paulista

Por Daniela Manzani

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