São José do Rio Preto, no interior paulista, celebra o Dia da Consciência Negra com a lembrança de figuras negras cruciais para a formação da cidade. A história oficial da cidade destaca datas e nomes específicos, mas a contribuição da população negra, muitas vezes negligenciada, é igualmente vital.
O historiador Fernando Marques ressalta que a cidade, marcada pela imigração árabe e italiana no final do século XIX devido ao ciclo do café, foi construída significativamente pelas mãos da população negra.
Entre os personagens importantes, destaca-se Pedro Amaral, homem negro que desempenhou papel central na transformação do povoado em cidade. Ele atuou na urbanização, na articulação política e administrativa, e no desenvolvimento geral de Rio Preto. O reconhecimento de Amaral ganhou força graças ao trabalho do pesquisador e militante Aristides dos Santos, que se dedicou a estudar e defender a história local, registrando documentos e divulgando a importância de Pedro Amaral.
Santos acreditava na educação, na cultura e na memória como ferramentas de transformação. Sua insistência para que Pedro Amaral fosse reconhecido politicamente foi fundamental para corrigir uma distorção histórica. A antropóloga Niminon Suzel destaca que o reconhecimento de Amaral como o primeiro prefeito da cidade, detentor de patente real de coronel, é resultado do trabalho incansável de Aristides dos Santos, que lutou por décadas para que sua foto fosse incluída na Câmara.
A influência da população negra se estende à arte e à música. O clarinetista e saxofonista Paulo Moura, nascido no centro da cidade, é reconhecido como um dos maiores talentos da música brasileira, elevando o nome de Rio Preto para o mundo. O historiador Fernando enfatiza que a música de Moura é essencialmente negra, representando a expressão da arte negra no Brasil.
No teatro local, Laerte Cunha se tornou um símbolo de presença e resistência. Como o primeiro homem negro a ocupar o centro do palco, Cunha quebrou barreiras e inspirou gerações de artistas a construir um teatro mais plural, desafiando a hegemonia de atores brancos. Sua filha, Beta Cunha, continua o legado do pai, reafirmando a importância do protagonismo negro.
Fonte: g1.globo.com