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Quando o ano termina, a vida começa de outro jeito

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Entre quedas íntimas e escuridões coletivas, uma reflexão sobre a coragem de continuar quando a vida muda de lugar.

No fim do ano, as pessoas costumam fazer balanços. Enumeram conquistas, listam perdas, calculam ganhos. Mas há anos que não se deixam medir assim. Anos que não cabem em retrospectivas nem em resoluções para o futuro. Eles simplesmente passam por nós — e nos atravessam.


Pensemos em uma moça. Não uma exceção, não um caso extraordinário, mas alguém possível, quase comum. Alguém que, em doze meses, viu a própria vida perder o desenho conhecido. Um ano em que tudo aquilo que sustentava sua identidade — o corpo, o trabalho, o amor — mudou de lugar ao mesmo tempo. E aquele primeiro de janeiro, em casa, de pijama, lhe parecia o prenúncio das mudanças que estavam por vir.


O corpo foi o primeiro a pedir atenção. Não por vaidade, mas por exaustão. A obesidade não havia chegado como escolha simples; era resultado de camadas acumuladas: ansiedade, silêncio, permanências adiadas. A decisão pela cirurgia bariátrica foi um gesto de coragem íntima. Não prometia felicidade, apenas continuidade. Depois dela vieram outras cirurgias, outras marcas, outras esperas. O corpo precisou ser reaprendido, como se aprende um território novo, com cautela e respeito.
Enquanto o corpo se transformava, o trabalho se perdeu. O emprego que dava ritmo aos dias, que sustentava uma ideia de utilidade e pertencimento, foi interrompido por razões impessoais. Hannah Arendt lembrava que é pelo trabalho que o humano se inscreve no mundo comum. Quando ele desaparece, algo mais profundo se rompe: o lugar simbólico de onde se fala e se é visto.


Mas a decisão mais difícil veio do espaço mais íntimo. Após muitos anos, essa moça encerrou um casamento infeliz. Não houve escândalo, nem dramatização pública. Houve lucidez. Houve o reconhecimento doloroso de que permanecer já não era virtude, mas apagamento. Montaigne escreveu que a verdadeira liberdade está em poder abandonar aquilo que nos corrói. Ainda assim, desmontar uma vida compartilhada é atravessar uma demolição por dentro — cada lembrança cai com um som próprio.


A assimetria do tempo tornou tudo mais agudo. Enquanto ela atravessava o luto — do corpo antigo, do trabalho perdido, da vida conjugal desfeita —, o ex-marido reorganizava rapidamente o futuro: nova relação, nova casa, novos planos. Não como julgamento, mas como evidência de algo simples e duro: nem todos elaboram as perdas com o mesmo compromisso. Para alguns, a vida continua; para outros, ela precisa ser reconstruída com cuidado quase artesanal.


Não é estranho que esse ano tenha sido lido como derrota. Albert Camus dizia que o drama humano não está na queda, mas na resposta que se dá a ela. Houve dias em que levantar da cama já era um ato de resistência. Nenhuma epifania, nenhuma virada espetacular — somente a insistência silenciosa de quem se recusa a desaparecer.


Talvez Schopenhauer ajude a nomear esse desalento. Para o filósofo, a infância seria o único período genuinamente feliz; o resto da vida se comporia de breves intervalos de alegria entre longos estados de desejo, frustração e adaptação. Não é pessimismo gratuito, mas lucidez. Crescer é aceitar que a felicidade não se instala — visita.


E, ainda assim, algo permanece. Viktor Frankl escreveu que, quando tudo nos é tirado, resta a liberdade de escolher como responder ao sofrimento. Essa moça não escolheu vencer; escolheu continuar. Não correu para preencher o vazio, não transformou o recomeço em espetáculo. Somente permaneceu fiel a si, dia após dia.


Talvez seja por isso que, em tantos momentos de escuridão histórica, a humanidade recorra às imagens da luz. Não por ingenuidade, mas por necessidade. Em um mundo que ainda assiste a ataques movidos por ódio, preconceito e antissemitismo — inclusive em datas que celebram a vida e a resistência —, acender uma vela não é gesto decorativo. É afirmação. Chanukah lembra que nem toda vitória é grandiosa, nem toda derrota é final. Às vezes, vencer é manter a chama acesa quando tudo ao redor insiste em apagá-la.


No fim, talvez seja isso que reste aos anos difíceis: a tarefa de nos ensinar que recomeçar não é esquecer a dor, mas recusar a escuridão como destino.

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