Um ônibus que transportou gerações de jogadores de futebol do América Futebol Clube de São José do Rio Preto (SP) em suas jornadas pelo futebol paulista, e que muitos pensaram estar condenado à sucata, acaba de ganhar uma segunda chance. O veículo, um clássico Marcopolo III fabricado em 1982, que serviu o clube entre 2008 e 2017, foi vendido e será submetido a um meticuloso processo de restauração por um empresário de Artur Nogueira (SP). A notícia, que inicialmente gerou apreensão entre os fãs, revelou-se um tributo emocionante à memória e ao legado familiar.
A cena do antigo coletivo sendo guinchado do Estádio Benedito Teixeira, o Teixeirão, onde permaneceu parado por nove anos, agitou as redes sociais há cerca de duas semanas. A imagem, que para muitos significava o fim melancólico de uma era, na verdade marcava o início de uma viagem de 316 quilômetros rumo a uma nova história, carregada de valor afetivo e histórico.
O Resgate de um Símbolo do América-SP
Para os torcedores do América-SP, o “Diabo” (como o clube é carinhosamente conhecido), o ônibus não era apenas um meio de transporte. Era parte da paisagem, um símbolo das esperanças e frustrações em cada partida distante de São José do Rio Preto. Durante quase uma década, ele foi testemunha silenciosa de concentrações, comemorações e desafios. Sua deterioração no pátio do Teixeirão representava, para alguns, a própria luta do clube para se reerguer.
A repercussão nas redes sociais demonstra a memória afetiva que o veículo despertava. Muitos expressaram tristeza ao pensar que o ônibus estava indo para o desmanche, o que ressalta o papel que objetos, mesmo que inanimados, podem ter na construção da identidade e do patrimônio de uma instituição e de sua comunidade de fãs. A notícia da restauração, portanto, trouxe um alívio e renovou a sensação de que a história do clube está sendo valorizada.
Um Tributo Familiar e a Paixão pelo Transporte
O protagonista dessa empreitada é o empresário Leonardo Capatto, de Artur Nogueira, cuja motivação transcende o simples negócio. Leonardo, que também é motorista e eletricista em sua empresa familiar, conta que seu desejo é fazer um tributo ao pai. “Nós somos uma pequena empresa de ônibus e tudo começou com um modelo desse aí. Meu pai tinha um ônibus que ele mesmo dirigia e ficava na frente da minha casa, então eu cresci dentro desses ônibus e sempre procurei um exemplar desse para fazer um tributo, pois os que eram nossos infelizmente já foram desmanchados”, explica.
A busca de Leonardo por um Marcopolo III em bom estado era persistente. Ele descobriu o ônibus do América-SP por meio de fotos publicadas em um site especializado, que mostravam o veículo já fora de uso, mas com muitas de suas características originais preservadas. Essa preservação interna, com bancos, luminárias, luzes de leitura e maleiros intactos, é um verdadeiro achado para restauradores, já que a maioria dos modelos antigos é descaracterizada para virar ‘motorhome’. Para Leonardo, a sorte sorriu, pois o estado original é crucial para o projeto de restauração fiel ao passado de sua família.
O Desafio da Restauração e o Legado Triplo
O processo de restauração promete ser complexo e oneroso. Leonardo estima gastar até três vezes o valor pago pelo ônibus, sem contar possíveis surpresas. O motor Volvo B58, por exemplo, ainda não foi testado, aguardando troca de filtros e óleo para evitar qualquer dano na primeira partida após anos de inatividade. A reposição de peças é um dos maiores desafios, dada a inexistência de sobressalentes novos no mercado.
Todo esse esforço, contudo, é um ato de homenagem às três gerações da família Capatto dedicadas ao transporte rodoviário. O avô, Acácio, iniciou o negócio em 1966 com uma Kombi, passando o bastão para os filhos Jorge (pai de Leonardo) e Leandro (tio de Leonardo). A ideia é que o ônibus restaurado exiba as cores da primeira empresa da família, celebrando uma história que se confunde com o desenvolvimento do transporte na região.
Um Aceno à História do América e o Olhar do Clube
Apesar de o ônibus ganhar as cores da empresa familiar, o América Futebol Clube não será esquecido. “Vamos encontrar um cantinho nele para colocar uma placa registrando que ele pertenceu ao clube e fez o transporte dos jogadores, com alguma foto simbólica de um jogo”, adianta Leonardo Capatto. Antes de vestir as cores do América-SP, o veículo teve outras vidas, pertencendo às empresas Viação Itamarati e Viação Rio Preto, o que adiciona camadas à sua rica história.
O presidente do América, Marcos Vilela, contextualizou a negociação. Desde o início de sua gestão, em outubro de 2024, ele tem trabalhado na recuperação da imagem do clube e na melhoria das condições do Estádio Teixeirão. Após orçar o conserto do ônibus, o custo inviável levou à decisão de vendê-lo, mas com uma condição: “jamais nós iríamos vendê-lo para sucata, não era nosso intuito. Graças a Deus conseguimos negociar e chegar num valor que era interessante para o América e para esta empresa”, afirmou Vilela, reforçando o compromisso do clube em preservar sua memória, mesmo em meio a desafios financeiros.
Atualmente, o ônibus já se encontra no pátio da empresa de Leonardo Capatto em Artur Nogueira, aguardando sua vaga na funilaria para dar início ao processo. A promessa é de um trabalho minucioso, que buscará preservar o máximo de características originais, transformando o veículo não apenas em um tributo familiar, mas também em um pedaço vivo da história do futebol paulista.
Histórias como a do ônibus do América-SP nos lembram que a paixão vai além do campo, encontrando eco em objetos que testemunharam momentos importantes. Acompanhe o RP News para mais reportagens que contextualizam fatos, exploram suas relevâncias e trazem à tona as narrativas humanas por trás da informação. Nosso compromisso é com a qualidade e a profundidade que você merece.
Fonte: https://g1.globo.com