Um cenário desolador tem se agravado nos afluentes do Rio Tietê, na região noroeste de São Paulo. Entre as cidades de Glicério e Penápolis, extensas formações de algas se espalham, criando um denso e vistoso “tapete verde” que, sob a aparente tranquilidade, esconde uma grave crise ambiental. Este fenômeno, que afeta rios como o Ribeirão Bonito, em Glicério, o Ribeirão São Jerônimo e o Ribeirão Lageado, em Penápolis, não apenas altera drasticamente a paisagem local, mas também compromete severamente a **vida aquática** e a **qualidade de vida** dos moradores, lançando um alerta sobre a necessidade urgente de ações de **saneamento básico** e **preservação ambiental**.
A cada ano, a situação se repete e intensifica, transformando córregos antes cristalinos em massas esverdeadas e viscosas. O que antes era um local de pesca e lazer para as comunidades ribeirinhas, hoje se apresenta como um ambiente hostil. O **excesso de algas**, um sintoma clássico do processo de **eutrofização**, impede a passagem de luz solar, crucial para a sobrevivência de outras espécies vegetais subaquáticas. Consequentemente, a decomposição dessa matéria orgânica em abundância consome o oxigênio dissolvido na água, um processo fatal para os peixes e demais organismos aquáticos. A vida que outrora prosperava nos leitos dos rios agora luta para sobreviver ou simplesmente desaparece.
Para moradores como o aposentado José dos Reis Pereira, de Glicério, a rotina passou a incluir uma luta solitária contra a natureza alterada. Quase diariamente, munido de um rastelo, ele tenta em vão diminuir a quantidade de algas que insistem em tomar conta do Ribeirão Bonito. “Antes era uma beleza porque nós pescávamos. A gente via a prainha aqui. Hoje, só se vê mato”, lamenta José, relembrando um passado onde a água era fonte de sustento e lazer. A tristeza não é apenas pela perda da beleza natural; no ano passado, o volume de algas foi tão grande que o ribeirão exalava um **mau cheiro** insuportável, um reflexo direto da deterioração do **ecossistema aquático**.
A causa raiz deste cenário é multifacetada, mas converge para a **intervenção humana desordenada**. O principal fator para a proliferação descontrolada das algas é o **excesso de nutrientes**, como fósforo e nitrogênio, que chegam aos rios. Esses elementos, que atuam como “adubo” para as plantas aquáticas, são provenientes majoritariamente do **descarte irregular de esgoto doméstico e industrial sem tratamento** e do escoamento de agrotóxicos e fertilizantes de áreas agrícolas. Em algumas localidades, a densidade das algas é tamanha que toma mais de dois metros de profundidade, formando uma camada espessa que sufoca o ambiente.
A situação se repete com fidelidade em outros afluentes, como o Ribeirão São Jerônimo, que atravessa os municípios de Zacarias e Planalto. Em Penápolis, o aposentado Marcos Gobbi testemunha a triste transformação do Ribeirão Lageado. “Quando eu comprei o terreno aqui, o que me chamou a atenção foi a água. Hoje, se você pensar em vender, está difícil. A pessoa vem na beira do rio, o que ela quer? O rio. Chega aqui, o rio não está em condições de uso”, relata Gobbi, sintetizando o **impacto ambiental** e econômico nas propriedades ribeirinhas e na atratividade da região. A perda da **qualidade da água** se traduz diretamente em desvalorização do patrimônio e da **qualidade de vida** da população.
Ação Oficial e o Desafio da Fiscalização
Diante do problema, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), órgão responsável pelo **monitoramento** e fiscalização dessas áreas, emitiu um posicionamento. A companhia explica que a combinação de chuvas e altas temperaturas favorece a proliferação de algas. Essa observação é pertinente, pois a água mais quente e a maior incidência de luz solar são condições ideais para o crescimento desses organismos. Contudo, é fundamental ressaltar que esses fatores climáticos apenas potencializam a proliferação em rios que já estão sobrecarregados por **cargas poluentes** de origem antropogênica.
A Cetesb informa ainda a existência de uma força-tarefa, que inclui outros órgãos, dedicada à fiscalização e proteção dos **recursos hídricos**. Desde o início do ano de 2025, foram realizadas 419 inspeções e aplicados R$ 13 milhões em penalidades em todo o estado. Embora os números denotem uma atuação, a persistência e a gravidade do problema nos afluentes do Tietê sugerem que as medidas atuais, sejam elas de fiscalização ou de **tratamento de esgoto**, ainda não são suficientes para reverter o quadro e garantir a **saúde do ecossistema** e da população.
Contexto do Tietê e a Urgência das Soluções
A situação nos afluentes do noroeste paulista ecoa a longa e complexa história de **poluição do Rio Tietê**. Embora o rio principal tenha passado por programas de despoluição nas últimas décadas, os seus afluentes frequentemente permanecem como pontos críticos, muitas vezes negligenciados ou com infraestrutura de **saneamento básico** deficitária. A luta pela **despoluição do Tietê** é um projeto contínuo e caro, que exige investimento constante e fiscalização rigorosa, especialmente nos menores cursos d’água que compõem sua bacia hidrográfica.
Para uma solução duradoura, é imperativo que haja um esforço conjunto e contínuo. Isso inclui **investimentos massivos em saneamento básico**, com ampliação das redes coletoras de esgoto e da capacidade de tratamento em todas as cidades da bacia, o controle rigoroso da **poluição industrial e agrícola**, e campanhas de **conscientização ambiental** para a população. A saúde dos rios é um reflexo direto da saúde das cidades e do compromisso de seus habitantes e gestores com o futuro.
O ‘tapete verde’ que sufoca os afluentes do Rio Tietê não é apenas uma questão estética, mas um grito de socorro do **meio ambiente**, com sérias implicações para a biodiversidade, a economia local e a **saúde pública**. A história de José e Marcos, com a nostalgia dos rios claros e piscosos, serve como um lembrete vívido do que está em jogo. É um problema que exige não só a atenção das autoridades, mas também a participação ativa de cada cidadão na busca por **soluções sustentáveis**. Para acompanhar de perto os desdobramentos desta e de outras notícias que impactam o seu dia a dia e o meio ambiente, continue conectado ao RP News, seu portal de informação relevante e contextualizada, sempre em busca da verdade e da qualidade em cada reportagem.
Fonte: https://g1.globo.com