Quase dois anos após a trágica queda do voo 2283 da Voepass, que tirou a vida de 62 pessoas em agosto de 2022, a memória da médica Arianne Albuquerque Estevan Risso, de 34 anos, é perpetuada em um livro emocionante lançado em São José do Rio Preto (SP). A obra, que não se propõe a reviver a dor da tragédia, mas sim a celebrar a vida e o impacto de Arianne, destaca os pilares de fé, humanismo e dedicação que nortearam sua atuação na medicina, especialmente em Fernandópolis, onde se formou e trabalhou.
Natural de Cuiabá (MT), Arianne trilhou parte significativa de sua jornada em São Paulo. Formou-se em Medicina em 2015 em uma universidade de Fernandópolis, cidade que a acolheu e onde deixou sua marca. Entre 2019 e 2020, ela atuou na rede pública de saúde, integrando o Programa Saúde da Família do bairro Brasilândia. Ali, sua abordagem atenciosa e seu compromisso com a comunidade já prenunciavam a médica dedicada que se tornaria. Sua passagem por Fernandópolis foi marcada não apenas pelo profissionalismo, mas por uma profunda conexão com os pacientes, para quem a medicina era percebida como uma verdadeira missão.
O Sonho Interrompido e a Tragédia Aérea
Arianne estava em ascensão em sua carreira. Após anos dedicados à formação e ao serviço público, havia se mudado para Cascavel (PR) para realizar um grande sonho: fazer residência em oncologia no renomado Hospital do Câncer Uopeccan. Foi para um congresso médico que ela embarcou no voo 2283 da Voepass, que partiu de Cascavel com destino a São Paulo, em agosto de 2022. O fatídico voo, que deveria ser apenas uma ponte para o aprimoramento profissional, terminou abruptamente. A aeronave caiu dentro de um condomínio no bairro Capela, em Vinhedo, na região de Campinas, não deixando sobreviventes. O acidente aéreo chocou o país, sendo considerado um dos maiores da história recente da aviação civil brasileira, ceifando 62 vidas e deixando um rastro de dor e questionamentos.
A Força da Memória e a Luta por Justiça
Para a família e amigos, a publicação do livro se tornou um farol. A obra foi idealizada para que a essência de Arianne não se perdesse no tempo. A autora, Maria Fernandes, que não conheceu Arianne pessoalmente, recebeu a nobre missão de compilar sentimentos, a fé inabalável e os valores deixados pela médica. O resultado é um mosaico de lembranças e testemunhos, como o da médica intensivista Andressa Silva Machado Paulino, amiga de Arianne desde os tempos da faculdade, que ressaltou à TV TEM: “Ela era uma mulher de muita fé, de muitos princípios. Ela encarava a medicina como uma missão e transmitia amor no cuidado com os pacientes”.
O lançamento do livro em homenagem à médica tocou profundamente não apenas aqueles que conviveram com Arianne, mas também pessoas que, embora desconhecidas, se sensibilizaram com sua história de vida e dedicação. Virgínia Munique, assessora do Sindicato dos Médicos, emocionada no evento, afirmou: “A gente, como mãe, se sensibiliza com uma história dessa”. Essa repercussão demonstra o poder de uma vida bem vivida em inspirar e tocar corações, mesmo após sua interrupção.
O Legado de Arianne e o Vigor da Mãe
Fátima Albuquerque, mãe de Arianne, tornou-se um símbolo de resiliência e busca por respostas. Desde o acidente da Voepass, ela tem atuado à frente da associação dos familiares das vítimas do voo 2283, acompanhando de perto as complexas investigações sobre a tragédia. Sua voz ecoa a indignação e o desejo por verdade e justiça para todas as famílias impactadas. “Vai ser pela primeira vez, em toda a história da aviação civil, que você vai ver de fato os culpados, não só o piloto. A gente sabe que foi crime sim”, declarou Fátima à TV TEM, durante o evento de lançamento, expressando uma convicção compartilhada por muitos familiares que buscam uma responsabilização ampla pelos acontecimentos.
Em meio à dor, a publicação do livro representa para Fátima uma forma de sublimar o luto e transformar a revolta inicial em um tributo duradouro. “Gratidão. Em um primeiro momento, foi a revolta de ter perdido minha filha tão cedo, mas, agora, posso mostrar ao mundo a história da minha filha”, disse, emocionada. O legado de fé e humanismo de Arianne, que construiu parte de sua trajetória acadêmica, profissional e pessoal em Fernandópolis – onde conheceu o marido, o teólogo Leonardo Risso da Silva, e onde foi velada e sepultada –, agora transcende as memórias pessoais e se materializa em uma obra que inspira. É um convite para que sua história de amor ao próximo e dedicação à medicina continue a ecoar, reforçando a importância de vidas pautadas por valores tão nobres.
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Fonte: https://g1.globo.com