Às vésperas da estreia da África do Sul na Copa do Mundo, um detalhe visual chama a atenção dos brasileiros: a equipe sul-africana, assim como a seleção canarinho, entra em campo vestindo as cores verde e amarelo. Contudo, essa similaridade cromática é apenas a ponta do iceberg de uma complexa e profunda teia de conexões entre os dois países. Longe dos gramados, Brasil e África do Sul compartilham uma série de características socioeconômicas e políticas, forjando uma parceria estratégica que se reflete em posições convergentes no cenário internacional, especialmente na busca pela paz e pelo desenvolvimento global.
A abertura do Mundial, que coloca os sul-africanos contra o México, em um torneio sediado também por Canadá e Estados Unidos, serve como um lembrete vívido da presença africana no futebol de alto nível. O ex-técnico Joel Santana, que comandou os sul-africanos entre 2008 e 2009, destaca o crescente nível técnico dos “Bafana Bafana” após a experiência brasileira. “Depois que nós, brasileiros, fomos lá, o nível do futebol deles tem subido gradativamente”, afirmou Santana à Agência Brasil, apostando no potencial da equipe. Mas as convergências entre as duas nações se estendem muito além da paixão pelo esporte e da cor do uniforme.
Parceria Econômica: Superando o Potencial Adormecido
Fora dos campos, a relação entre Brasil e África do Sul é marcada por um desejo de colaboração mútua e não de rivalidade. Essa visão foi claramente articulada pelo presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, durante um encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Brasília, em março deste ano. Ramaphosa expressou a expectativa de ampliar as relações com a América Latina, com o Brasil sendo um ponto de partida fundamental para cooperações econômicas mais robustas.
“Deveríamos cooperar em um nível muito mais alto”, declarou Ramaphosa na ocasião, ressaltando que ambos são os países mais industrializados em seus respectivos continentes e que o comércio bilateral precisa ser significativamente maior. A estagnação do intercâmbio anual, que gira em torno de US$ 2,3 bilhões há quase duas décadas, foi classificada por Lula como inexplicável. “Não existe nenhuma explicação política para que o comércio entre os países não seja de US$10 bilhões”, ponderou o presidente brasileiro, evidenciando o vasto potencial a ser explorado.
A pauta de cooperação é diversificada e estratégica. Ramaphosa defende a atuação conjunta em setores vitais como agricultura e pecuária, energia, mineração e defesa. Atualmente, o Brasil exporta majoritariamente carnes de aves, açúcar e veículos rodoviários para a África do Sul, enquanto importa prata, platina e outros minerais. Em um movimento para reverter a estagnação, os países já firmaram acordos recentes, incluindo o reforço da cooperação no turismo, visando o aumento da conectividade aérea e a promoção de destinos, e parcerias técnicas em agropecuária focadas no enfrentamento da febre aftosa e no aprimoramento de medidas de vigilância sanitária animal. Tais iniciativas refletem o compromisso mútuo em aprofundar laços que são cruciais para o desenvolvimento do chamado ‘Sul Global’.
Voz Ativa no Cenário Global: A Autoridade Moral Sul-Africana
Além das perspectivas econômicas, a sintonia entre Brasil e África do Sul se manifesta fortemente na diplomacia. Durante a visita de Estado, Ramaphosa endossou a posição brasileira por uma solução pacífica para os conflitos no Oriente Médio, classificando as agressões como violações da Carta das Nações Unidas, que resultam em mortes e destruição. Essa postura conjunta ganha um peso considerável devido à autoridade moral que a África do Sul conquistou após superar 50 anos de apartheid, um regime de segregação racial que privilegiava a minoria branca.
Especialistas ressaltam a singularidade da experiência sul-africana. William Gonçalves, pesquisador sênior do Instituto Nacional de Ciências e Tecnologia (INCT) e professor aposentado de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, enfatiza: “A África do Sul tem autoridade moral, porque viveu um momento interno escabroso e conseguiu superar isso sem guerra civil”. Essa bagagem histórica confere ao país a legitimidade para condenar veementemente ações em Gaza e no Líbano, chamando-as de “crime de guerra” e “genocídio”.
A luta contra o apartheid, liderada por figuras icônicas como Nelson Mandela, ecoa até hoje. Em 2015, muito depois do fim do regime, a África do Sul teve papel fundamental na aprovação das Regras Nelson Mandela pela ONU, normas que proíbem a tortura no sistema penal e asseguram julgamentos justos — direitos que Mandela e centenas de palestinos detidos em prisões israelenses, segundo denúncias de entidades de direitos humanos, não tiveram. A própria ONU tem denunciado a tortura sistemática, generalizada e que se tornou doutrina de Estado contra crianças, mulheres e homens palestinos em Israel. Curiosamente, nos anos 1970, enquanto a nação africana vivia o auge da segregação, o Brasil foi um dos países que pressionaram pelo fim do regime, congelando relações diplomáticas e comerciais com Pretória, demonstrando uma histórica convergência de valores e respeito aos direitos humanos.
Horizontes de Uma Parceria Estratégica e Duradoura
As semelhanças entre Brasil e África do Sul, que vão muito além das cores de uma camisa de futebol, revelam uma base sólida para uma parceria estratégica e duradoura. Ambas as nações, como membros ativos do BRICS e potências regionais, buscam reconfigurar o equilíbrio de poder global, promovendo um modelo de desenvolvimento mais equitativo e multipolar. Aprofundar os laços econômicos e diplomáticos não apenas beneficia diretamente seus povos, mas também fortalece a voz do Sul Global em questões cruciais como a paz, a segurança alimentar e o combate às desigualdades. O futuro reserva um potencial imenso para que essa colaboração se traduza em progressos tangíveis, solidificando uma amizade construída sobre valores compartilhados e desafios comuns.
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