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Morre Elza Berquó: o legado de uma demógrafa pioneira nos estudos populacionais do Brasil

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© Leo Ramos Chaves/Revista Pesquisa FAPESP

São Paulo perdeu nesta quinta-feira (16) uma de suas mentes mais brilhantes e uma figura central para a compreensão do Brasil contemporâneo. Aos 100 anos, faleceu a professora e cientista Elza Salvatori Berquó, uma das mais respeitadas demógrafas do país. Sua partida marca o fim de uma era de profundas contribuições para os estudos populacionais e para a formulação de políticas públicas embasadas em dados concretos.

Com uma formação inicial em Matemática pela Universidade Católica de Campinas e mestrado em Estatística pela USP, seguido por especialização em Bioestatística na Columbia University, Elza Berquó dedicou sua vida a desvendar as complexas dinâmicas demográficas brasileiras. Ela foi uma força motriz na análise de dados censitários, que permitiram entender o processo de urbanização do Brasil e as transformações sociais que moldaram nossa nação entre as décadas de 1960 e 2000, oferecendo um panorama essencial para a construção do país que conhecemos hoje.

Pioneirismo Acadêmico em Tempos de Adversidade

A trajetória de Elza Berquó foi marcada por um rigor acadêmico inegável, mas também por um notável engajamento com as questões sociais e políticas de seu tempo. Em 1965, ela já se destacava com análises profundas sobre o desenvolvimento da população paulista, utilizando dados dos censos de 1940 e 1950. Sua atuação na Faculdade de Saúde Pública da USP foi abruptamente interrompida em 1968, quando foi aposentada compulsoriamente pelo regime militar – um reflexo do cerceamento à liberdade de pensamento e pesquisa que marcou aquele período obscuro da história brasileira.

Contrariando as tentativas de silenciamento, Elza Berquó respondeu com mais trabalho e resistência. No ano seguinte, ao lado de intelectuais de peso como Fernando Henrique Cardoso, Octávio Ianni e José Arthur Giannotti, ela participou da fundação do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Esta instituição se tornaria um farol de pesquisa e pensamento crítico, fornecendo dados e análises cruciais em um período onde a informação independente era duramente reprimida. Sua presença no Cebrap foi fundamental para consolidar a demografia como ferramenta de compreensão social e de resistência política.

Além do rigor científico, Elza Berquó era uma ferrenha defensora dos direitos humanos e da autonomia individual. Ela pautou discussões sobre o acesso consciente e esclarecido a métodos contraceptivos, à legalização do aborto e à plena garantia dos direitos reprodutivos para toda a população. Sua pesquisa não se limitava aos números; ela via pessoas por trás das estatísticas, engajando-se na luta contra a mortalidade infantil e pela melhoria das condições de vida. A fundadora da ONG Cepia Cidadania, Jacqueline Pitanguy, resumiu essa característica única: “Ela trouxe ao mesmo tempo o rigor acadêmico e o compromisso político com os direitos humanos, o que é uma coisa rara”.

A “Mãe da Demografia Brasileira” e o Legado Institucional

O impacto de Elza Berquó transcendeu suas pesquisas individuais, manifestando-se na criação e fortalecimento de instituições essenciais. Ela foi uma das fundadoras do Núcleo de Estudos de População da Universidade Estadual de Campinas (Nepo-Unicamp), que desde 2014, em justa homenagem, leva o seu nome. A Unicamp, sob sua influência, tornou-se pioneira nos estudos demográficos no Brasil, abrindo caminho para o desenvolvimento de pesquisa e ensino de alta qualidade na área. José Marcos Cunha, ex-coordenador do Nepo, atesta: “Elza é a história da demografia no Brasil e, particularmente, da Unicamp, que se tornou pioneira nos estudos na área”.

Em 1995, em um contexto democrático já consolidado, Elza Berquó voltou a ter papel de destaque na esfera governamental ao fundar e presidir a Comissão Nacional de População e Desenvolvimento (CNPD). Este órgão do governo federal tem a missão de assessorar decisões estratégicas no campo populacional, reafirmando a importância de políticas públicas baseadas em evidências. Segundo Richarlls Martins, atual presidente da CNPD, “Elza Berquó, nossa primeira presidente da CNPD, acreditou profundamente no Brasil, contribuiu para a ampliação dos direitos humanos de todas as pessoas, viu pessoas atrás dos números e defendeu ao longo de toda sua vida, no marco dos seus 100 anos, a democracia e as políticas públicas baseadas em evidências”.

Seu legado institucional se estende ainda à Associação Brasileira de Estudos Populacionais (ABEP), que, junto ao Nepo e à CNPD, compõe a tríade de pilares da demografia brasileira que ela ajudou a construir. O Acadêmico Eduardo Rios Neto, que trabalhou com Elza na ABEP, a descreve como a “mãe da demografia brasileira”, dada sua trajetória excepcional na criação e desenvolvimento dessas instituições relevantes.

Uma Vida Centenária de Inspiração e Relevância Perene

Elza Berquó celebrou seu centenário em outubro do ano passado, em uma série de homenagens que ressaltaram não apenas sua longevidade, mas a vivacidade e a atualidade de seu pensamento. Sua obra continua a reverberar nas discussões contemporâneas sobre envelhecimento populacional, desigualdades sociais, migração e o futuro da população brasileira. A cientista social, antropóloga e demógrafa Gláucia Marcondes, atual coordenadora do Nepo, sintetiza o sentimento de admiração: “Hoje é um dia triste porque perdemos uma mulher fantástica, uma cientista inspiradora. Mas, ao olhar para a vida de Elza, celebramos suas conquistas, as pessoas que ela formou, as instituições que criou e sua trajetória incrível”.

O falecimento de Elza Berquó deixa uma lacuna profunda, mas seu legado de rigor científico, compromisso ético e defesa incansável dos direitos humanos permanece como um farol para futuras gerações de pesquisadores e ativistas. Ela nos ensinou que os números da população são, acima de tudo, histórias de vida, direitos e potenciais a serem compreendidos e protegidos.

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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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