Miami ainda era, em 1937, um refúgio de inverno reservado a magnatas americanos quando o ex-ditador cubano Gerardo Machado se estabeleceu por lá. Em 1933, o chamado “Mussolini dos Trópicos” fugira às pressas de Havana, no meio de uma revolta popular para depor o regime liderado por ele e que, durante oito anos, havia mudado a constituição, perseguido intelectuais, estudantes e executado opositores. O episódio marcou o início de uma longa tradição geopolítica que atravessaria décadas na península da Flórida.
Ao longo do século XX e avançando pelo século XXI, a cidade norte-americana deixou de ser apenas um destino turístico de luxo para se consolidar como o principal polo geopolítico e cultural da diáspora conservadora latino-americana. A chegada de Machado abriu caminho para ondas sucessivas de exilados, governantes depostos, empresários e figuras públicas que encontravam na metrópole uma combinação única de proximidade geográfica com seus países de origem e a segurança jurídica e econômica dos Estados Unidos.
Da era dos caudilhos à Guerra Fria
O fluxo de figuras políticas para Miami ganhou enorme tração com a chegada da Revolução Cubana em 1959. Centenas de milhares de cubanos fugiram do regime de Fidel Castro, transformando a região de Little Havana em um reduto de resistência anticomunista. Diferente de outros movimentos migratórios, a elite política e econômica que desembarcou na Flórida mantinha forte articulação ideológica e financeira, moldando a política local e exercendo pressão constante sobre Washington em relação às agendas hemisféricas.
Nas décadas seguintes, com o avanço e a queda de regimes autoritários em toda a região — desde as ditaduras militares no Cone Sul até as crises institucionais na América Central —, Miami seguiu absorvendo lideranças de direita e centro-direita. Para esses grupos, a cidade oferecia um ecossistema favorável com redes de apoio consolidadas, meios de comunicação voltados para o público latino e um ambiente livre de taxações estaduais pesadas, atraindo capitais e capitães de indústria.
O cenário contemporâneo e a nova direita
Nos últimos anos, o fenômeno ganhou novos contornos com a ascensão de uma nova onda de polarização política na América Latina. Ex-presidentes, parlamentares, estrategistas digitais e influenciadores conservadores do Brasil, da Colômbia, da Venezuela e da Argentina passaram a adotar Miami como base para articulações internacionais, conferências e investimentos.
Essa migração recente difere do exílio tradicional do século passado. Em vez de refugiados ocultos, muitas dessas figuras mantêm forte presença nas redes sociais, operam redes de influência transnacionais e utilizam a infraestrutura cosmopolita da cidade para se manterem no centro do debate político de seus países de origem, mesmo à distância.
Impactos econômicos e culturais na Flórida
A presença contínua dessa elite política e econômica transformou permanentemente a identidade de Miami. A cidade, que antes girava em torno do turismo sazonal, hoje se posiciona como a verdadeira “capital da América Latina nos Estados Unidos”. Esse status traz debates complexos sobre o papel da cidade como bastião de liberdade ideológica versus abrigo para figuras controversas que fogem de investigações judiciais em seus países natais, redefinindo as fronteiras entre exílio, negócios e poder global.
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Fonte: https://redir.folha.com.br







