Entre a má-fé e a ignorância, o uso distorcido da linguagem por autoridades públicas compromete não apenas a confiança, mas a própria possibilidade de realidade compartilhada.
A política sempre operou com palavras. Mas há uma diferença substantiva entre o uso estratégico da linguagem — inerente à vida pública — e sua corrosão deliberada ou negligente. Quando governantes mentem, seja por cálculo ou por desconhecimento, o dano ultrapassa o campo moral: atinge a própria estrutura do mundo comum.
Hannah Arendt, ao refletir sobre a relação entre verdade e política, já advertia que a mentira sistemática não apenas oculta fatos, mas reorganiza a percepção coletiva da realidade. Em outras palavras, não se trata apenas de esconder o que é, mas de produzir um ambiente em que o verdadeiro e o falso se tornam indistinguíveis. Esse é o terreno mais fértil para a erosão democrática.
Há, nesse cenário, duas formas de desvio igualmente perigosas. A primeira é a mentira consciente, instrumentalizada como técnica de poder. A segunda — talvez mais sutil — é a ignorância revestida de autoridade. Quando um agente público emprega termos carregados de densidade histórica e jurídica sem domínio de seu significado, o efeito pode ser tão nocivo quanto a falsificação deliberada.
O caso do uso da palavra “milícia” é exemplar. Trata-se de um termo que, no contexto brasileiro contemporâneo, está associado a organizações paramilitares, frequentemente vinculadas a práticas criminosas e a estruturas paralelas de poder. Sua utilização por uma autoridade estatal, fora desse campo semântico consolidado, exige precisão extrema. Alegar, posteriormente, que a palavra foi usada em outro sentido não elimina o impacto inicial — nem resolve o problema de fundo: a responsabilidade pelo uso público da linguagem.
George Orwell, em seu célebre ensaio sobre política e língua inglesa, argumentava que a degradação da linguagem está intimamente ligada à degradação do pensamento. Já Michel Foucault demonstrava como o discurso não é apenas um meio de expressão, mas um mecanismo de poder que produz verdades, delimita campos de saber e legitima práticas.
Quando uma autoridade distorce ou banaliza termos sensíveis, ela não está apenas cometendo um erro retórico. Está interferindo no regime de verdade que sustenta a vida pública. E isso tem consequências concretas: normaliza ambiguidades perigosas, relativiza conceitos jurídicos e fragiliza a capacidade da sociedade de nomear corretamente seus próprios problemas.
Há ainda um elemento adicional: a assimetria entre quem fala e quem ouve. O cidadão comum pode se equivocar no uso de uma palavra; o governante, não. Sua fala é institucional, performativa, dotada de efeitos. Como ensinaria J. L. Austin, dizer algo, em certos contextos, é fazer algo. E, na política, isso é ainda mais evidente.
O perigo, portanto, não reside apenas na mentira explícita, mas na dissolução dos critérios que permitem identificá-la. Quando tudo pode significar qualquer coisa — ou quando se tenta convencer o público disso — instala-se um ambiente de indeterminação que favorece o abuso de poder.
Recuperar a responsabilidade no uso das palavras é, assim, uma tarefa política de primeira ordem. Não se trata de preciosismo semântico, mas de compromisso com a inteligibilidade do mundo comum. Sem isso, não há debate público consistente, não há responsabilização e, no limite, não há democracia que se sustente.
Porque, ao fim, governar também é nomear. E quem nomeia mal — por dolo ou por ignorância — governa contra a própria realidade que deveria servir.