Em um cenário global marcado por incertezas econômicas e disputas comerciais, o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, reacendeu um debate crucial para a competitividade brasileira. Nesta terça-feira (17), Mercadante propôs a criação de um novo Plano Brasil Soberano, uma iniciativa pensada para oferecer suporte estratégico a empresas exportadoras e setores da economia brasileira que enfrentam desafios impostos por tarifas internacionais e pela volatilidade geopolítica.
A proposta surge como uma resposta direta às tarifas impostas pelos Estados Unidos, que, apesar de algumas reversões recentes, ainda penalizam importantes segmentos da indústria nacional. Para Mercadante, o auxílio deve se estender não apenas às exportadoras diretamente afetadas, mas também a setores com déficits comerciais (onde as importações superam as exportações), segmentos considerados estratégicos para o desenvolvimento do país e aqueles que sentem os reflexos de conflitos armados ao redor do globo. A ideia é reforçar a resiliência e a capacidade de resposta do Brasil em um mercado mundial cada vez mais complexo.
O Precedente do 'Brasil Soberano' e os Desafios Atuais
A defesa de Mercadante não parte do zero. Em agosto de 2025, o BNDES lançou a primeira versão do Plano Brasil Soberano, um pacote de financiamento direcionado especificamente a empresas exportadoras brasileiras impactadas por um “tarifaço” americano, que chegou a impor barreiras de até 50% para alguns produtos vendidos aos Estados Unidos. Esse programa, que visava mitigar os efeitos de decisões protecionistas, demonstrou sua eficácia ao injetar R$ 19,5 bilhões em 676 empresas, conforme o balanço financeiro de 2025 apresentado pelo banco.
Apesar de uma decisão da Suprema Corte dos EUA, em fevereiro, ter derrubado parte da política tarifária do governo Donald Trump – que inicialmente impôs uma tarifa global de 15% –, Mercadante alerta que alguns setores brasileiros continuam sendo alvo de tributações superiores. Ele destaca a persistência da Seção 232, uma legislação americana que permite a imposição de tarifas por razões de segurança nacional. “Quando é para todos, não desequilibra a relação de comércio. O problema é quando você tem uma tarifa superior aos seus concorrentes”, enfatiza o presidente do BNDES.
Exemplos práticos citados por Mercadante incluem o setor siderúrgico, de alumínio e cobre, que ainda enfrentam tarifas de 50%. Já o segmento automotivo e de autopeças sofre com taxações de 25%. Essa distinção coloca empresas brasileiras em desvantagem competitiva em comparação com exportadores de outras nações, justificando a necessidade urgente de um “Brasil Soberano 2” para restabelecer o equilíbrio comercial.
A Abrangência do Apoio e os Próximos Passos
A visão de Mercadante para o novo plano é mais ampla do que a versão anterior. Além de proteger as exportadoras em desvantagem, ele defende que o programa alcance setores que historicamente registram saldo negativo na balança comercial e aqueles considerados vitais, como o de fertilizantes. A justificativa para a inclusão destes últimos é o impacto das guerras na Ucrânia e Rússia (iniciada em 2022) e no Irã (2026), envolvendo países-chave na produção de fertilizantes. Essa dimensão global ressalta a importância de ter maior resiliência frente a um cenário geopolítico turbulento.
Um ponto crucial que favorece a proposta é a disponibilidade de recursos. Mercadante revelou que nem todos os fundos do primeiro Plano Brasil Soberano foram utilizados, deixando R$ 6 bilhões no caixa do BNDES. Isso significa que a implementação da nova fase não exigiria custo extra para o orçamento público, tornando-a fiscalmente viável. No entanto, o uso desses recursos para um novo programa demandaria uma definição legal específica, que só pode ser aprovada pelo Congresso Nacional, possivelmente por meio de uma Medida Provisória, dada a urgência e relevância do tema.
As articulações políticas já estão avançadas. Mercadante informou que há conversas com o vice-presidente Geraldo Alckmin, que também é ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, e com o Ministério da Fazenda. A decisão final caberá ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, evidenciando o alinhamento da pauta com a agenda econômica do governo federal. A expectativa é que, com o apoio necessário, o novo plano possa ser implementado rapidamente, fortalecendo a indústria e o comércio exterior do país.
BNDES em Outras Frentes: A Recuperação da Raízen
Ainda durante a apresentação do balanço de 2025, Aloizio Mercadante abordou outro tema de grande interesse econômico: a situação da Raízen. A gigante de biocombustíveis e operadora dos postos Shell, entrou recentemente com pedido de recuperação extrajudicial, um mecanismo que permite a empresas em dificuldades financeiras negociar dívidas diretamente com credores para evitar a falência. A proposta de renegociação alcança a cifra de R$ 65,1 bilhões, e o BNDES, que aprovou um financiamento de R$ 1 bilhão para a companhia produzir etanol em janeiro de 2025, está ativamente envolvido na busca por uma solução.
Mercadante esclareceu que a dívida da Raízen com o banco federal possui garantias reais e não será incluída na renegociação extrajudicial. Contudo, o BNDES está empenhado em fazer parte de uma solução mais ampla. “Acreditamos que essa recuperação é possível e estamos trabalhando nessa direção”, afirmou, destacando o peso da companhia, uma junção entre Shell e Cosan, que possui ativos importantes, como cerca de 8 mil postos de gasolina, e um papel crucial no setor de biocombustível.
O esforço do BNDES, em diálogo com credores, a Shell, o grupo Cosan e outros parceiros do sistema financeiro, ressalta o compromisso do banco não só com o desenvolvimento de novos setores, mas também com a sustentabilidade de grandes empresas já estabelecidas, cuja recuperação é vital para a manutenção de empregos e para a cadeia produtiva nacional. Essa atuação demonstra a amplitude do papel do BNDES como indutor e estabilizador da economia brasileira.
Em um cenário de desafios internos e externos, a defesa de um novo Plano Brasil Soberano e a postura ativa do BNDES em casos de recuperação demonstram o compromisso do banco com a defesa da indústria nacional e a promoção da competitividade. As decisões que virão terão impacto direto no futuro das exportadoras e setores estratégicos, moldando a posição do Brasil no comércio global e sua capacidade de adaptação em um mundo em constante transformação. Continue acompanhando o RP News para ter acesso a análises aprofundadas, notícias relevantes e o desdobramento dos fatos que impactam sua vida e o futuro do país.