Entenda quais motivos estão por trás da volta da magreza extrema como símbolo de status
Por Daniela Manzani
O padrão do tido como “corpo perfeito” tem algumas camadas que envolvem uma série de fatores. De um lado, vamos pontuar o glamour de uma modelo em passarela, sempre um corpo esguio, zero culotes, estrias, ou uma gordurinha pontual. Não, jamais! A magreza nas passarelas impera, aliás, não somente nas passarelas, mas como nas mídias sejam elas televisivas, impressas ou digitais.
Para exemplificar, é impossível não citar o grande Michel Alcoforado – que se infiltrou no mundo dos super-ricos brasileiros e escreveu seu livro denominado “Coisa de Rico”, onde conta como eles se comportam. Antes do livro, Michel disse que ficou meses submerso em uma pesquisa etnográfica para entender a dinâmica dos hábitos da elite e qual a relação disso nas desigualdades sociais.
A chamada ditadura da magreza parece estar mais robusta nos últimos anos, especialmente impulsionada pelas redes sociais e pela estética que vem sendo promovida por celebridades e influenciadores digitais.
O corpo extremamente magro como da atriz e modelo Bruna Marquezine, que remete ao estilo “heroin chic” dos anos 90, reaparece como símbolo de status e sofisticação, em contraste com a ideia de que corpos maiores são “deselegantes”, sobretudo por, supostamente, estar atrelado às camadas desabastadas.
Essa distinção revela como padrões estéticos não são apenas escolhas individuais, mas também instrumentos de segregação; ser magro passa a ser visto como sinal de uma disciplina inegociável, acesso a recursos e pertencimento a uma elite cultural.
Esse movimento é reforçado por práticas que vão além da moda e da alimentação, como o uso disseminado de medicamentos para emagrecer, a exemplo das canetas de semaglutida, que se tornaram um atalho para alcançar rapidamente o corpo desejado. Ao mesmo tempo, essa busca pela magreza extrema traz consequências sérias para a saúde física e mental, aumentando os casos de transtornos alimentares, insatisfação corporal, pressão psicológica, distorção da imagem, sobretudo entre adolescentes e jovens que consomem esse conteúdo diariamente na internet.
O paradoxo é que, apesar dos avanços recentes do movimento “body positive” e da valorização da diversidade corporal, há um retrocesso evidente – onde discursos de aceitação e inclusão são abafados pela estética “clean girl” e pelo culto ao corpo magro como padrão aspiracional e símbolo da alta sociedade.
A indústria da moda e da beleza, por sua vez, se apropria desses movimentos apenas de forma superficial, mantendo intactos os ideais excludentes que reforçam desigualdades.
Como conclusão, acredito ser fundamental analisar os aspectos camuflados neste assunto, para não se contaminar e, eventualmente, adoecer-se na busca do padrão inatingível, onde mulheres que vivem em função da imagem e, altamente providas de recursos, conseguem viver todos os dias, exclusivamente para treinar, viajar e alimentar-se de forma rigorosamente leve em uma realidade absurdamente discrepante das milhares de famílias reais. Aliás, também é perceptível que, a magreza real entre pessoas normais da classe D e E não é glamour, mas sinal de escassez.
Entretanto, vale ressaltar que a parte da disciplina da alta sociedade é algo irrefutável. Já se imaginou com milhões ou bilhões na conta, podendo viajar e desfrutar dos melhores destinos e paisagens? Você comeria feito um louco ou manteria a elegância de comer apenas o que o seu corpo precisa de forma consciente e saudável? Eis a questão! Para as celebridades como Bruna Marquezine e Sasha Meneghel, que não passam vontade de nada, exibir um corpo muito magro é como levantar uma bandeira do autocontrole. Porque nesse caso, não se trata de minimalismo, e sim de uma comunicação cultural e velada, que reflete os hábitos mais enigmáticos e discretos da classe afortunada. Pense nisso!
