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Feminicídio e seus órfãos: a jornada de um jovem paulista que assume a guarda dos irmãos

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G1

A vida de Kauan Henrique de Moraes, um jovem de apenas 22 anos, transformou-se radicalmente há um ano, em Novo Horizonte, interior de São Paulo. De um dia para o outro, o apoio de sua família desmoronou com a trágica morte de sua mãe, Josiane Borges Furlaneto, de 36 anos, vítima de um **feminicídio brutal**. Este crime não apenas ceifou uma vida, mas também impôs a Kauan a responsabilidade precoce de assumir a **guarda dos dois irmãos mais novos**, uma decisão que ecoa a dor e as **consequências devastadoras da violência de gênero** que assola o Brasil.

O caso de Josiane e de sua família não é isolado. Em meio às celebrações do Dia Internacional da Mulher, dados recentes acendem um alerta sobre a escalada da **violência contra a mulher** no país. Conforme informações do Ministério da Justiça e Segurança Pública, 2025 já se projeta como um ano de recorde alarmante para o **feminicídio no Brasil**, com uma média assustadora de quatro mulheres mortas por dia. A história de Kauan é um retrato humano e doloroso de como essa barbárie se manifesta na vida real, deixando um rastro de traumas e famílias desestruturadas.

A Tragédia em Novo Horizonte e o Impacto Profundo

Josiane Borges Furlaneto foi assassinada a facadas dentro de sua própria casa por seu ex-namorado, Augusto César Leite, há exato um ano. O homem invadiu a residência durante a noite e atacou a vítima, desferindo mais de 20 golpes, enquanto o filho de 14 anos dormia no quarto ao lado. A premeditação e a brutalidade do crime chocam e expõem a face mais cruel da **violência doméstica**.

Para Kauan, a perda da mãe foi o início de uma nova e árdua realidade. “Ela era o suporte de toda a nossa família, cuidava de todo mundo. Eu estou tentando colocar em prática o que ela me ensinou: ser forte”, relata o jovem em entrevista à TV TEM. Suas palavras, carregadas de resiliência e dor, revelam o enorme fardo que agora carrega. “Nem sempre é fácil, às vezes fico triste, acabo me abalando, mas sigo tentando. Quero ser forte, como ela sempre me ensinou, e cuidar da minha família e das pessoas que eu amo”, afirma.

O **impacto do feminicídio** vai muito além da vítima direta. Kauan descreve como o crime desestruturou sua família inteira. “Eu vejo que, pouco a pouco, ele não matou só a minha mãe, ele destruiu a minha família inteira. Todo dia eu chego e vejo minha avó chorando. Meu avô, mesmo já sendo idoso, perdeu a vontade de viver. Do mesmo jeito, minha tia ficou depressiva e agora depende de remédios. Para conseguir dormir ou simplesmente viver, ela precisa tomar medicação.” O testemunho da irmã de Josiane, Juliana Borges Moreira, reforça o sentimento de injustiça e impunidade, clamando por justiça máxima para o agressor, que, segundo ela, “planejou e premeditou tudo nos mínimos detalhes”. A dor e a revolta são palpáveis, denunciando a ausência irremediável deixada por uma vida brutalmente interrompida.

Os Órfãos do Feminicídio: Uma Ferida Aberta na Sociedade

O caso de Kauan e seus irmãos lança luz sobre uma realidade alarmante e muitas vezes silenciada: a dos **órfãos do feminicídio**. Essas crianças e adolescentes, que perdem suas mães para a violência e, em muitos casos, veem seus pais ou padrastos se tornarem os algozes, enfrentam traumas psicológicos profundos e duradouros.

A psicóloga Luane Natalle, coordenadora do Centro de Referência e Apoio à Vítima (Cravi), programa da Secretaria da Justiça e Cidadania do estado de São Paulo, explica a complexidade dessa dor. “O crime de feminicídio não implica apenas na perda direta da mãe. Muitas vezes, também resulta na perda da figura paterna, já que ex-companheiros, companheiros ou pais dessas crianças costumam ser os autores da violência. Isso afeta ainda mais o sentimento de pertencimento e segurança dessas crianças, que se sentem desamparadas”, detalha Luane. Mesmo quando acolhidos por parentes, o vazio e a quebra de segurança são imensuráveis, exigindo suporte psicológico e social contínuo.

A triste estatística nacional ecoa no estado de São Paulo, onde 266 mulheres foram assassinadas por homens, marcando o maior número em um período de sete anos. Em cidades como São José do Rio Preto, na mesma região de Novo Horizonte, mais de 3 mil mulheres buscaram ajuda contra a **violência doméstica** entre janeiro e agosto de 2025, evidenciando a urgência de fortalecer as redes de apoio e proteção. A história de Ana Paula Goulart, de 39 anos, morta em dezembro de 2025 pelo namorado em Catanduva (SP), apenas reforça a dimensão da tragédia que se repete em lares por todo o interior paulista, como bem expressa sua mãe, Sônia de Fátima Zampieri Tonelli: “Nunca imaginamos que isso poderia acontecer com a gente. Mas, quando acontece, é que percebemos que pode acontecer com qualquer pessoa, com qualquer família. E quando acontece, acaba com a família inteira.”

O Desafio Social e a Necessidade de Políticas Públicas Efetivas

A realidade de Kauan e de tantas outras famílias que enfrentam o **luto e a revolta** diante do feminicídio é um lembrete contundente da falha estrutural em proteger suas cidadãs. A Lei do Feminicídio, embora crucial, não basta se não for acompanhada de **políticas públicas robustas** que atuem na prevenção, no acolhimento das vítimas e, fundamentalmente, no apoio aos órfãos e demais familiares atingidos. É preciso investir em educação para combater o machismo, fortalecer os canais de denúncia, garantir a eficácia das medidas protetivas e oferecer **suporte psicossocial e financeiro** a quem perdeu tudo para a violência.

A luta pela justiça de Josiane e Ana Paula, e o esforço de Kauan para reconstruir sua família, não podem ser em vão. A sociedade precisa reconhecer que o feminicídio é um problema que afeta a todos, dilacerando famílias e deixando cicatrizes profundas. É um chamado à ação coletiva para garantir que nenhuma criança precise carregar o peso de ser um órfão da violência de gênero, e que nenhuma mulher seja apenas mais um número nas estatísticas.

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Fonte: https://g1.globo.com

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