A partir deste domingo, 1º de março, o silêncio imposto pela natureza e pelas normas ambientais em rios de todo o estado de São Paulo dá lugar à efervescência da pesca. O encerramento do período de Piracema, que marca a reprodução dos peixes, não apenas celebra a reabertura da atividade pesqueira, mas também injeta um vigoroso fôlego na economia de cidades do noroeste paulista, especialmente aquelas banhadas pelos rios Grande e Tietê e seus afluentes. Municípios como Icém, Orindiúva e Paulo de Faria, na região de São José do Rio Preto, já sentem o impacto imediato no setor de turismo e serviços, com hotéis, pousadas e empresas de aluguel de barcos registrando lotação máxima e grande procura.
Piracema: a pausa essencial para a vida aquática
Para entender a dimensão da movimentação econômica gerada pelo fim da Piracema, é crucial contextualizar sua importância. O termo, de origem tupi, significa ‘subida do peixe’ e refere-se ao período em que diversas espécies de peixes nadam contra a correnteza para realizar a desova, garantindo a continuidade de seus ciclos reprodutivos. No estado de São Paulo, essa fase de defeso da pesca é rigorosamente observada de novembro a fevereiro, visando proteger os cardumes e os ecossistemas aquáticos. Durante esses meses, a pesca é restrita ou totalmente proibida, impactando diretamente as comunidades ribeirinhas que dependem da atividade.
A interrupção da pesca, embora necessária ecologicamente, representa um desafio econômico para muitas famílias e negócios locais. Por isso, o retorno da atividade é aguardado com grande expectativa, funcionando como um verdadeiro termômetro para a economia regional. A reabertura não é apenas a liberação para a captura de peixes, mas o catalisador de uma cadeia produtiva que engloba hospedagem, alimentação, aluguel de equipamentos e outros serviços.
Onda de prosperidade: hotéis, barcos e comércio em alta
A movimentação em torno do fim da Piracema é tão intensa que, em algumas localidades, serviços próximos à barragem da usina hidrelétrica de Marimbondo, no Rio Grande, já estão com vagas esgotadas para as próximas semanas. Meire Garcia, proprietária de uma pousada em Icém, relata à TV TEM a intensidade da demanda: “Nessa primeira semana e na segunda estão praticamente lotados, é um momento sempre esperado porque é um movimento que a gente não tem durante o ano, mas, na abertura da pesca, é bem movimentado”. Esse pico de procura não se restringe à hospedagem, refletindo-se em diversos outros setores.
O segmento de aluguel de barcos, essencial para os pescadores, vive situação similar. Joel Garcia, proprietário de uma empresa do ramo em Icém, confirma que sua frota já está completamente reservada para a primeira quinzena de março. Aos que não conseguiram antecipar a reserva, restam alternativas como utilizar embarcações próprias, com as empresas oferecendo serviços de colocação no rio e limpeza do pescado. Essa realidade expõe a infraestrutura de apoio ao pescador que se desenvolve nessas cidades, criando empregos e geração de renda sazonal.
O comércio local também se beneficia diretamente. Lojas especializadas em artigos de pesca, desde varas e molinetes até itens mais específicos, como iscas vivas, reforçam seus estoques. Comerciantes relatam que chegam a ter mais de 15 mil iscas vivas preparadas para a demanda, mas preveem que o estoque se esgote em apenas poucos dias, demonstrando o frenesi dos consumidores. Restaurantes, mercados, postos de gasolina e até artesãos locais sentem o aquecimento, já que a chegada de pescadores e suas famílias movimenta toda a engrenagem econômica do município.
Fiscalização e responsabilidade: a balança da sustentabilidade
Com a reabertura da pesca, a atuação da Polícia Ambiental torna-se ainda mais crucial. O órgão intensifica as ações de fiscalização náutica e terrestre, não apenas para garantir a segurança dos pescadores e veranistas, mas principalmente para assegurar o cumprimento das rigorosas regras ambientais. Isso inclui o respeito aos tamanhos mínimos permitidos para cada espécie, as cotas de captura diárias por pescador e a proibição de pesca de espécies específicas ou com petrechos irregulares, como redes de arrasto ou tarrafas. A vigilância é constante para prevenir a pesca predatória, que poderia comprometer os esforços de recuperação dos cardumes após o período reprodutivo.
A importância de uma pesca consciente e responsável é um tema recorrente e fundamental para a sustentabilidade dos recursos hídricos. A educação ambiental, aliada à fiscalização, busca garantir que a atividade continue a gerar benefícios econômicos sem esgotar os ecossistemas. Ações de conscientização sobre a importância de devolver peixes abaixo do tamanho regulamentar ou de espécies proibidas são essenciais para manter o equilíbrio da vida aquática nos rios Grande e Tietê, que são veias vitais para a região.
Desdobramentos e o futuro da pesca no noroeste paulista
O fim da Piracema e a consequente reabertura da pesca representam mais do que um mero calendário para as cidades do noroeste paulista. É um evento que reflete a interdependência entre a natureza, a cultura e a economia local. A cada ano, a expectativa se renova, e a capacidade das comunidades ribeirinhas de se adaptarem e aproveitarem esse período de bonança demonstra a resiliência e a inventividade dos pequenos negócios e empreendedores.
Olhando para o futuro, o desafio é manter essa movimentação econômica de forma sustentável, incentivando práticas de ecoturismo e pesca esportiva que valorizem a conservação ambiental. A valorização dos rios como patrimônio natural e a conscientização sobre a importância da preservação são caminhos essenciais para que o ciclo da Piracema continue a abençoar a região com vida e prosperidade, ano após ano.
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Fonte: https://g1.globo.com