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Pesquisa alerta para adolescentes ainda desprotegidos contra o HPV

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© Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Uma lacuna preocupante na proteção da saúde de milhares de jovens brasileiros vem à tona com os dados mais recentes da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE). Divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na última quarta-feira (25), a pesquisa revela que menos da metade dos adolescentes entre 13 e 17 anos têm certeza de estarem vacinados contra o HPV (papilomavírus humano). Essa constatação acende um alerta sobre a vulnerabilidade de uma parcela significativa da população juvenil a diversos tipos de câncer que poderiam ser prevenidos de forma eficaz e gratuita pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

A vacina contra o HPV é reconhecida mundialmente como uma das mais potentes ferramentas na prevenção de **cânceres de colo do útero**, que responde por 99% dos casos, além de tumores no ânus, pênis, boca e garganta. Contudo, para que sua eficácia seja plena, a imunização deve ocorrer no final da infância ou início da adolescência, idealmente antes do início da vida sexual. A faixa etária recomendada pelo Ministério da Saúde para meninos e meninas é de 9 a 14 anos, momento em que o sistema imunológico responde melhor e a exposição ao vírus ainda é improvável.

Números que Preocupam: Uma Cobertura em Queda Livre

Os dados da PeNSE 2024 são claros: apenas 54,9% dos estudantes entrevistados afirmaram ter certeza de estarem vacinados contra o HPV. O cenário se agrava ao observarmos que 10,4% declararam não ter recebido a vacina, e impressionantes 34,6% sequer sabiam se haviam sido imunizados. Em termos absolutos, essa falta de informação e proteção se traduz em aproximadamente **1,3 milhão de adolescentes desprotegidos** e outros **4,2 milhões potencialmente vulneráveis** à infecção pelo vírus.

Mais alarmante ainda é a tendência de queda na cobertura vacinal. Comparando com a edição anterior da pesquisa, realizada em 2019, o percentual de estudantes vacinados recuou 8 pontos percentuais. Embora as meninas apresentem uma cobertura ligeiramente maior (59,5% contra 50,3% dos meninos), a redução entre elas foi ainda mais acentuada, atingindo 16,6 pontos percentuais. Essa diminuição é um retrocesso significativo em um país que já foi referência em programas de imunização e que enfrenta agora o desafio de reverter a desinformação e a hesitação vacinal.

Iniciação Sexual Precoce e o Risco Ampliado

A urgência da imunização precoce é sublinhada por outro dado revelador da pesquisa: 30,4% dos estudantes de 13 a 17 anos já tinham vida sexual ativa. A idade média de iniciação sexual foi de 13,3 anos para os meninos e 14,3 anos para as meninas. Este cenário ressalta a importância de que a vacina seja aplicada antes do contato com o vírus, que é **transmitido principalmente por via sexual**. A imunização nesta fase da vida confere uma proteção robusta e de longo prazo, prevenindo doenças graves no futuro.

Os Entraves da Imunização: Além das Fake News

Identificar os motivos por trás da baixa adesão é crucial para reverter o quadro. Para metade dos estudantes que não se vacinaram, a principal razão apontada foi o **desconhecimento da necessidade** da vacina. Esse dado corrobora a análise de Isabela Balallai, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, que destaca a falta de informação como um problema central.

“Todo mundo acha que a hesitação vacinal se resume às fake news, mas não é isso. A desinformação é só uma das coisas que causam a hesitação vacinal. As outras são a **falta de acesso**, a **baixa percepção do risco da doença** e a falta de informação. E isso é um problema máximo no Brasil. Muitas pessoas não sabem quando têm que se vacinar e quais as vacinas disponíveis”, explica Balallai, desmistificando a ideia de que a resistência à vacina se limita à propagação de notícias falsas.

Outros fatores, embora em menor proporção, também contribuem para a baixa cobertura: 7,3% dos estudantes relataram que pais ou responsáveis não permitiram a vacinação; 7,2% não sabiam qual a função da vacina; e 7% enfrentaram dificuldade de acesso ao local de imunização. Essas barreiras apontam para a necessidade de campanhas mais amplas e estratégias de vacinação que superem obstáculos geográficos e socioeconômicos.

Desigualdades e o Potencial da Escola

A pesquisa também revelou disparidades entre os estudantes das redes pública e privada. Na rede pública, 11% não se vacinaram, em comparação com 6,9% na rede privada. Curiosamente, a resistência dos pais foi mais expressiva entre os alunos da rede privada (15,8%) do que na pública (6,3%). Essa diferença sugere que campanhas direcionadas e a conscientização de diferentes grupos sociais são fundamentais.

Para a diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, o ambiente escolar se mostra como um **ator primordial** na superação desses desafios. “Quando você pega os principais fatores de hesitação vacinal, a escola resolve todos eles. Resolve a desinformação, educando o adolescente. Resolve a falta de informação, quando eles são informados que vai ter a vacinação. Resolve o acesso, porque é muito difícil levar um adolescente ao posto de saúde, mas vacinar na escola é muito mais simples. E resolve a conscientização dos pais”, defende Isabela Balallai.

A Vacina como Prioridade Familiar e a Importância do Cuidado Profissional

Na casa da jornalista e escritora Joana Darc Souza, a vacinação é uma prioridade. Suas duas filhas mais velhas, de 9 e 12 anos, estão imunizadas contra o HPV, enquanto a caçula de 6 anos aguarda a idade adequada. “Eu nunca tive dúvida em relação à eficácia e sempre defendi que **vacina salva vidas**. Isso é uma coisa que eu aprendi em casa, quando ainda era criança, e hoje eu replico com as minhas filhas”, conta Joana, exemplificando a importância da educação familiar e do legado de cuidado com a saúde.

As filhas de Joana estudam em escolas da rede municipal do Rio de Janeiro, onde a convocação para vacinação escolar é prática comum, embora a família se mantenha atenta ao calendário vacinal em outros contextos. O papel da pediatra também é destacado como fundamental: “Ela é bastante cuidadosa e sempre verifica a caderneta das meninas”, elogia a mãe. Essa interação com profissionais de saúde e o acompanhamento rotineiro são peças-chave para garantir que nenhum adolescente fique desprotegido.

O Caminho Adiante: Resgate Vacinal e Conscientização

Os dados da PeNSE 2024 servem como um sério aviso sobre a necessidade urgente de fortalecer as campanhas de vacinação contra o HPV. O Ministério da Saúde, em articulação com estados e municípios, precisa intensificar as ações de **resgate vacinal** e de conscientização. Ações em escolas, maior divulgação sobre os benefícios da vacina e a facilidade de acesso nas unidades básicas de saúde são estratégias vitais para reverter a queda na cobertura e proteger a saúde das futuras gerações.

É fundamental que a sociedade brasileira reconheça que a vacina contra o HPV não é apenas uma questão de saúde individual, mas um imperativo de **saúde pública** que impacta diretamente a incidência de câncer e a qualidade de vida de milhões de pessoas. Garantir que cada adolescente tenha a oportunidade de ser imunizado é um investimento no futuro do país.

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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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