Um cenário claramente estranho: como pode uma audiência pública realizada na câmara dos vereadores de Rio Preto abordar a saúde da mulher diante da ausência de mulheres?
Na manhã deste último sábado, dia 21 de fevereiro de 2026, vereadores de Rio Preto organizaram uma audiência pública na câmara dos vereadores – comumente chamada de “casa do povo” para debater a saúde física e mental da mulher. Parece bonito, não? Mas pasmem: não havia mulher alguma na mesa. Segundo documento disparado por meio de redes sociais, o evento teria sido promovido pelo vereador Felipe Alcalá de Assis, sendo divulgado como um debate preocupado com a saúde da mulher, entretanto, o que se viu, revelou contradições profundas.
A mesa foi composta exclusivamente por homens: um médico, um professor e um filósofo. Nenhuma liderança feminina da política local foi convidada, tampouco a Secretária da Mulher — conforme confirmou uma fonte fidedigna. Coletivos feministas também não tiveram espaço de protagonismo, sendo relegados a um papel secundário, sem destaque ou convite formal.
ASSUNTO OCULTO
Embora o documento oficial não mencionasse a arquidiocese como responsável pelo evento, o viés religioso esteve presente. O assunto central, no entanto, foi o aborto — tratado sob uma perspectiva moral e religiosa, sem a participação de mulheres que pudessem trazer vivências, experiências e reflexões próprias sobre o tema. É perigoso reduzir um tema de políticas públicas à perspectiva exclusivamente religiosa. Questões como saúde da mulher e aborto exigem debate plural, científico e social, não apenas moralizante. Nenhuma mulher deseja abortar por brincadeira; trata-se de uma decisão dolorosa e complexa. Muitas vezes, quem primeiro “abandona” é o homem, ao deixar de cumprir seu papel de pai e companheiro — esteja ou não presente na vida da gestante. Ignorar essa realidade é perpetuar injustiças e responsabilizar apenas a mulher por um problema que é coletivo.
REPRESENTATIVIDADE PARA QUÊ?
Discutir saúde da mulher sem mulheres na mesa é um contrassenso. A exclusão de lideranças femininas e de vozes da sociedade civil reforça estruturas patriarcais e invisibiliza quem deveria ser protagonista. A ausência de figuras femininas ativas da política rio-pretense evidencia um cenário em que decisões sobre o corpo e a vida das mulheres continuam sendo tomadas por homens, sem diálogo com aquelas que são diretamente afetadas.
VIÉS E ABUSO VELADO
A audiência pública expôs mais do que opiniões sobre saúde e aborto: revelou a persistente dificuldade de garantir representatividade feminina em espaços de poder e decisão. Qualquer debate sobre saúde da mulher que não inclua mulheres é, por definição, incompleto, enviesado e abusivo. É urgente que a política local abra espaço para vozes femininas, garantindo que temas que dizem respeito às mulheres sejam discutidos com elas — e não apenas sobre elas. Como disse a brilhante Mônica Galindo: imagina uma mesa cheia de mulheres discutindo câncer de próstata, disfunção erétil e câncer de pênis. Não te parece descabido?
E para finalizar, também vou parafrasear as palavras da igualmente brilhante, Presidente do Conselho dos Direitos das Mulheres de Rio Preto Patricia Lopes, ou seja, o assunto é urgente, mas da forma que foi colocado, se transformou em um ataque direto à democracia e à autonomia das mulheres de Rio Preto, além de uma total imposição e uma violência institucional.
Por Daniela Manzani