29/03/2022 às 20h18min - Atualizada em 30/03/2022 às 21h02min

Um sonho ousado: transformar a educação no Brasil

*Por Natalie Melaré

SALA DA NOTÍCIA Luna Marina Oliva da Conceição
https://www.institutodevolver.org.br/
Divulgação

Recentemente, o Todos pela Educação divulgou um levantamento mostrando que, entre 2019 e 2021, aumentou em 66,3% o total de crianças, entre seis e sete anos, que não sabem ler nem escrever no Brasil. O número passou de 1,4 milhão, em 2019, para 2,4 milhões, em 2021. Todos sabemos que a pandemia, o distanciamento social e o ensino à distância teriam um impacto na vida de quem está em idade escolar. Mas, ainda assim, me deparar com esses números me deu um certo embrulho no estômago. O Brasil sempre foi um país com imensas dificuldades e, quando pensamos em educação, a situação sempre me pareceu muito complicada - e os dados mostram que não tivemos melhorias nos últimos anos. 

A questão principal que, apesar de muito debatida, ainda não ficou clara para todos, é que todos os outros problemas do Brasil serão resolvidos - a longo prazo - com investimento em educação. Não há possibilidade de isso não ser absoluta prioridade. Um case de sucesso é a Coréia do Sul - há 40 anos, os sul-coreanos eram mais pobres que os brasileiros. Em grande parte, esse salto na economia pode ser explicado por uma revolução educacional, iniciada décadas antes, que deu prioridade à educação básica de qualidade. 

A educação é capaz de solucionar os maiores problemas do Brasil, desde a corrupção, passando pela questão das drogas e violência, até desemprego, desigualdade social e economia. Justamente por sempre ter isso muito forte dentro de mim, desde muito nova, estudei, pesquisei e me aprofundei para entender de quais formas eu poderia também me tornar um agente transformador de pequenas mudanças. Foi dessa maneira que eu percebi que crianças e adolescentes que vivem em situação de vulnerabilidade poderiam se interessar mais pelos estudos se tivessem a possibilidade de enxergar um futuro melhor, um primeiro emprego que garantisse alimentação, saúde e, consequentemente,  uma vida com mais dignidade. 

Quando estamos cercados de privilégios, sem abrir a mente para o que acontece ao nosso redor, podemos deixar de entender o que pode levar um jovem a virar ‘aviãozinho’ do tráfico, furtar ou roubar. Mas a realidade é que, quando se perde as esperanças de um futuro melhor, as pessoas viram zumbis para garantirem apenas o dia de hoje. Se o jovem não consegue enxergar o seu futuro, ele deixa de querer viver o presente. E não vive, apenas sobrevive. 

Sei que o principal ponto para uma educação básica de qualidade deve ser o investimento do Governo. Enquanto isso não for absoluta prioridade, todo e qualquer outro esforço terá menos resultado do que o esperado. Mas, de alguma maneira, também não posso deixar de acreditar na união de pessoas, organizações sociais e educadores para, ainda que a passos de formiga, melhorarem a realidade de crianças e adolescentes espalhados por todo o Brasil. 

É isso o que me motiva: quando eu sinto que consegui transformar a vida de um jovem. Quando consigo ver no olhar daquele adolescente o quanto acreditar e investir no seu potencial foi capaz de fazer com que o mesmo se enxergasse pela primeira vez. No fim, não posso deixar de acreditar no meu sonho que, apesar de ousado para algumas pessoas, e quase impossível para outras, é a única maneira que eu tenho de seguir confiando em um Brasil melhor para todos. 

Como disse o poeta Robinson Padial, o Binho, ‘uma andorinha só não faz verão, mas pode acordar o bando todo’. É isso que me faz juntar todas as minhas forças e coragem, todas as manhãs, para seguir apostando na educação e, principalmente, nas crianças e jovens brasileiros. 

Natalie Melaré é fundadora do Instituto Devolver, organização sem fins lucrativos para apoiar crianças e adolescentes carentes no Brasil


Link
Notícias Relacionadas »
Comentários »