31/03/2022 às 15h14min - Atualizada em 31/03/2022 às 16h51min

Alimentação à base de vegetais pode reverter a trajetória das mudanças climáticas

Em fevereiro de 2022, um novo estudo publicado pela PLOS Climate mostra que se a produção global de carne e laticínios for gradualmente reduzida até zerar durante os próximos 15 anos, será o mesmo que "cancelar" as emissões de gases de efeito estufa (GEE) geradas por todos os outros setores econômicos por 30 a 50 anos

SALA DA NOTÍCIA Jennifer Koppe

No final de 2020, uma pesquisa publicada na revista Science mostrou que, mesmo se todas as emissões de combustíveis fósseis fossem imediatamente zeradas, seria impossível cumprir a meta estabelecida pelo Acordo de Paris (de limitar o aumento da temperatura terrestre a 1,5°C ou até 2°C acima dos níveis pré-industriais) por conta das emissões geradas pelo sistema alimentar global sozinho.

Um artigo publicado na Nature Food indicou que se as 54 nações mais ricas do planeta (17% da população mundial) adotassem a dieta EAT-Lancet, que é baseada majoritariamente em vegetais, elas poderiam reduzir suas emissões de CO2 em dois terços ou 61%.

Em fevereiro de 2022, um novo estudo publicado pela PLOS Climate mostra que se a produção global de carne e laticínios for gradualmente reduzida até zerar durante os próximos 15 anos, será o mesmo que “cancelar” as emissões de gases de efeito estufa (GEE) geradas por todos os outros setores econômicos por 30 a 50 anos. Ou seja: uma transição progressiva para um sistema alimentar global baseado em vegetais tem a capacidade de, em pouco mais de uma década, zerar a quantidade de GEE que todas as indústrias, transportes e o setor energético, combinados, levariam até mais de meio século para emitir na atmosfera.

O sistema alimentar vigente é responsável por 34% de todas as emissões de GEE e a produção de proteína animal, sozinha, gera mais da metade (ou 15%) desse valor. Essas emissões vêm de várias fontes, mas principalmente da fermentação entérica (processo digestivo que ocorre em animais ruminantes) e do esterco dos ruminantes (que juntos, também são responsáveis por 32% das emissões de metano no mundo), da queima de combustíveis fósseis na cadeia de produção e abastecimento dos alimentos, e do desmatamento intensivo e extensivo (para abrir pastagens e para plantar os grãos que viram ração para os animais de abate).

Mais de 70% de todas as terras agrícolas do mundo são focadas na produção de alimentos para animais e 30% da superfície terrestre são ocupadas pela pecuária. Isso significa que um terço de toda a terra existente no planeta é usada para abrigar e/ou alimentar animais que, dentro de muito pouco tempo - e em escala industrial - são abatidos e chegam até nós como hambúrguer, bife, filé, coxa, linguiça e inúmeros outros tipos de formatos e cortes. Segundo o estudo, para sustentar um sistema alimentar baseado em vegetais, seria necessário usar apenas 7% das terras do nosso planeta.

Quando se trata da contribuição da pecuária para o aquecimento global, a maioria das análises tende a olhar diretamente para as emissões do setor e deixam de lado a questão do uso da terra, que é extremamente relevante. Isso porque, ao interromper a prática da pecuária e restaurar ou “renaturalizar” (rewild, em inglês) essas terras, todo o carbono que seria emitido passa a ser capturado e armazenado.

O estudo publicado no início deste mês na PLOS Climate é uma colaboração entre o professor de biologia molecular e celular da Universidade da Califórnia, Michael Eisen, e o professor de bioquímica da Universidade de Stanford e CEO da Impossible Foods Inc, Patrick Brown. Importante mencionar que a Impossible Foods é uma das grandes fabricantes de produtos vegetais substitutos de carne dos Estados Unidos, avaliada em US$4 bilhões em 2020. Os autores expõem esse conflito de interesse no início do artigo mas garantem que a ciência é sólida.

Mas a diminuição gradual na produção de carnes e laticínios é viável?

Para Brown, as mudanças necessárias devem ser orientadas pelo mercado, que segundo ele, é a instituição de ação mais rápida na Terra. “Esse movimento será impulsionado pela escolha do consumidor do lado da demanda. Se existem produtos que fazem um trabalho melhor em entregar o que eles desejam, nada pode impedir isso”.

Comprovando o que Brown diz, de acordo com o relatório da Research and Markets, o mercado global de carne e laticínios à base de plantas pode alcançar US$ 68,7 bilhões até 2025, com um crescimento anual (CAGR) de 17,42%. O mercado de proteína animal também deve crescer, mas numa taxa menor do que 4% ao ano. AT Kearney, empresa líder em consultoria de gestão, projeta que as carnes à base de plantas representarão 10% do mercado de carnes já em 2025.

Os desafios já começam a aparecer. Um novo relatório do The Good Food Institute aponta que o setor de alternativas vegetais pode ter problemas para suprir a demanda projetada para 2030. A pesquisa identificou entraves sobre a disponibilidade de volume para o fornecimento global de ingredientes essenciais para a indústria (como óleos, gorduras e proteínas). O estudo concluiu ainda a necessidade de investimento em infraestrutura, modernização das instalações de processamento existentes e colaboração entre os stakeholders do setor para que esse mercado prospere. 

O CEO da Impossible Foods admite no estudo que uma transição completa para um sistema alimentar à base de plantas enfrentará, sim, vários obstáculos e desafios porque carne, laticínios e ovos são um componente importante da dieta humana e a criação de gado é parte integrante das economias rurais em todo o planeta. Quase 2 bilhões de pessoas, a maioria no Sul Global, criam seus próprios animais para alimentação e renda - embora comam muito menos carne do que os consumidores de nações ricas. Essas pequenas fazendas produzem cerca de 80% dos alimentos consumidos na Ásia e na África Subsaariana, mas estas regiões apresentam os menores índices de consumo per capita por ano de carne do globo (Ásia: 26.6kg e África (toda): 13.0kg).

Por esses motivos, Brown e Eisel apontam o Ocidente como o principal responsável pelas altas emissões do setor de alimentos e, assim como o estudo da Nature Food, concluem que o foco da transição alimentar deve estar nesses países que, representando 68% do PIB global, é onde a mudança causaria o maior impacto positivo para o clima. Contudo, é importante dividir a responsabilidade dessa transição alimentar globalmente. Essa é uma mudança que, para ser efetiva, precisa acontecer do lado de quem produz e de que consome. 

Mas, por mais que os consumidores estejam demonstrando entusiasmo com os alimentos feitos de plantas, que replicam cada vez melhor sabor, textura e nutrição das versões convencionais e com preços cada vez mais competitivos, será que basta contar com a tomada de consciência do consumidor? As abordagens orientadas para o mercado podem fazer muito, mas serão suficientes para garantir o cumprimento de metas climáticas?

É inevitável pensar que os governos precisarão agir e elaborar, por exemplo, políticas para ajustar a pecuária a um modelo de produção mais sustentável. Isso foi feito - de forma intensiva - com o setor de energia e de transportes nos últimos anos. E enquanto outras tecnologias “amigas do clima” (como baterias e energias renováveis) já são discutidas regularmente em fóruns globais, como no Clean Energy Ministerial (CEM), onde as principais economias do mundo, em parceria única, trabalham em conjunto para acelerar a transição global de energia limpa, isso parece ainda ser um desafio para o setor de alimentos.

Uma das explicações pode estar no fato de que o potencial da contribuição das proteínas alternativas para cumprir as metas do Acordo de Paris tenha permanecido incompreendido até pouco tempo mas, com toda a ciência revelada nos estudos recentes, esse potencial não pode mais ser subestimado. Há muito a ser feito em nível internacional e, de acordo com um relatório do GFI com o Climate Advisers, as prioridades dos líderes políticos deveriam ser financiar a ciência de acesso aberto, incentivar a Pesquisa e o Desenvolvimento (P&D) do setor privado e apoiar a infraestrutura para fabricação de carnes cultivadas e feitas de plantas.

Enquanto isso não acontece, o mercado tem investido em soluções de curto prazo para incentivar a alimentação à base de plantas. São incontáveis os grandes e pequenos varejos, além de restaurantes e comércios locais, que têm colocado produtos vegetais em suas lojas ao redor do mundo. São inúmeras as empresas que estão desenvolvendo produtos híbridos e são enormes os avanços pelos quais o setor de carne cultivada tem passado recentemente.

As gigantes do fast food e do varejo também não estão ficando para trás - porque já entenderam que esses produtos vendem. O Panera Bread pretende tornar 50% do seu cardápio plant-based até 2025. O mesmo vale para o Burger King do Reino Unido, que até 2030 vai ter metade do menu com produtos feitos de planta para reduzir em 41% as suas emissões de GEE. No final de 2021, a rede Burger King também abriu sua primeira loja 100% vegetal em Madri. No Brasil, a rede conta com um sanduíche feito de plantas em seu menu. O McPlant, hambúrguer à base de plantas do McDonald’s, já é vendido em 600 estabelecimentos. Já a Tesco, uma gigante do varejo europeu, está no processo de aumentar suas vendas de alimentos à base de plantas (como hambúrgueres, salsichas, quiches, tortas e comidas prontas) em 300% até 2025 para acompanhar as medidas que desenvolveu em parceria com a ONG WWF. No início deste ano, a KFC lançou o “frango frito vegetal” em todos os pontos do Estados Unidos - depois do teste feito em Atlanta, em 2019, ter esgotado todo o produto em 5 horas. Ainda no Brasil, a rede Bob’s também conta com um lanche feito à base de plantas mimetizando o sabor de carne e frango.

Todas essas ações mercadológicas são importantíssimas para impulsionar uma transição alimentar porque tempo é um luxo que não temos de sobra. Para Brown, “a rapidez é tão importante quanto a magnitude. Todos os dias que não estamos fazendo algo a respeito, estamos avançando mais no caminho para danos irreversíveis”.

E a questão da pressa toca em outro ponto extremamente importante: o respeito aos animais. Mais de 70 bilhões de animais terrestres são consumidos todos os anos e os consumidores estão cada vez mais atentos e preocupados com a maneira que isso está sendo feito. A Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou no começo de março de 2022, durante assembleia em Nairóbi, no Quênia, uma resolução que inclui o bem-estar animal como política essencial no Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). A proposta foi aprovada pelos 193 países-membros. Antes da assembleia, um grupo de 27 organizações, que juntas representam mais de 1 milhão de membros, enviaram uma carta ao Ministério do Meio Ambiente solicitando que o país votasse a favor da resolução. O The Good Food Institute Brasil foi um dos signatários da carta.

A carta solicitou que “os Estados-membros protejam a vida selvagem e outros animais não-humanos, considerando o crescente consenso de que o bem-estar animal e a proteção dos ecossistemas estão intrinsecamente relacionados com alguns dos mais significativos desafios enfrentados pela comunidade global atualmente - incluindo a redução do risco de novas e emergentes infecções por doenças zoonóticas, a mitigação das mudanças climáticas e de outras ameaças ambientais - e assegurando sistemas alimentares seguros e sustentáveis”.

O texto ainda menciona que o bem-estar animal é uma importante preocupação para os cidadãos do Brasil e ao redor do mundo. De acordo com uma pesquisa de setembro de 2021 do instituto Datafolha, 88% dos brasileiros se importam em maior ou menor grau com o sofrimento dos animais nas fazendas, o que representa 9 em cada 10 brasileiros acima de 16 anos, ou aproximadamente 148 milhões de pessoas. Além disso, também foi apontado que 84% dos consumidores comprariam em outro lugar caso soubessem que o estabelecimento vende produtos de fazendas originados de práticas cruéis. Em 2020, 50% dos brasileiros já haviam reduzido o consumo de carne, segundo pesquisa do GFI Brasil com o IBOPE.

Seja pela compaixão, pela empatia, pela consciência ambiental, pela preocupação social, pelo sabor, pela saúde ou por todas as alternativas anteriores, o que importa é que mais e mais pessoas estão mudando suas dietas e descobrindo que essa transição pode ser, além de necessária, incrível e deliciosa, ao mesmo tempo em que começam a perceber que o garfo é uma importante ferramenta política e que os alimentos que botamos no prato são um voto pelo mundo que queremos.


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