PUBLICIDADE

O avanço dos ultraprocessados: como a dieta de povos tradicionais está mudando no Brasil

Teste Compartilhamento
© Rovena Rosa/Agência Brasil

Uma mudança preocupante está reconfigurando a mesa de povos e comunidades tradicionais em todo o Brasil. Longe de suas dietas ancestrais, ricas em frutas, vegetais e grãos cultivados em suas terras, o consumo de alimentos ultraprocessados tem crescido de forma consistente. Este fenômeno não apenas altera hábitos alimentares milenares, mas acende um alerta para a saúde pública e a preservação cultural desses grupos, conforme revela um estudo pioneiro.

A pesquisa, que analisou o perfil alimentar de 21 diferentes comunidades tradicionais – incluindo quilombolas, ribeirinhos, agroextrativistas, povos de terreiros, ciganos, pescadores artesanais, caiçaras e indígenas não aldeados – aponta para uma inversão preocupante. Alimentos historicamente presentes na alimentação dessas populações, como o feijão e diversas frutas frescas, perdem espaço para produtos industrializados, embalados e nutricionalmente desequilibrados, marcando uma transição alimentar com vastas implicações.

O Estudo Revela: Uma Radiografia da Dieta em Transformação

Conduzido pela professora e nutricionista Greyceanne Dutra Brito, doutoranda em Saúde Pública na Universidade Federal do Ceará (UFCE), o levantamento utilizou dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) do Ministério da Saúde, abrangendo o período de 2015 a 2022. Os resultados, embora variáveis entre os grupos, pintam um cenário geral “desfavorável”, nas palavras dos próprios pesquisadores, evidenciando uma vulnerabilidade crescente à dieta ocidentalizada.

A análise detalhada por faixa etária expõe a profundidade do problema. Entre crianças de dois a quatro anos, o consumo de hambúrgueres e embutidos cresceu 3,87% no período. Para as de cinco a nove anos, o aumento foi ainda maior, de 5,59%. Isso significa que, desde cedo, as novas gerações estão sendo expostas a um padrão alimentar que diverge drasticamente de suas raízes culturais e nutricionais, com consequências potencialmente duradouras para o seu desenvolvimento.

No grupo das gestantes adolescentes, observou-se uma queda tanto no consumo de alimentos saudáveis quanto de alguns não saudáveis. Houve uma diminuição anual de 3,65% no consumo de feijão e de 2,9% em frutas frescas. Paralelamente, registrou-se uma redução de 1,18% em ultraprocessados, 3,22% em bebidas adoçadas e 3,31% em biscoitos recheados e doces. Nas gestantes adultas, a queda nas frutas frescas foi de 2,11% ao ano, mas com um pequeno aumento de 0,71% no consumo de verduras e legumes, um contraponto positivo, porém modesto, que não compensa totalmente a redução de outros itens importantes.

Já entre adultos e idosos, a tendência de aumento no consumo de ultraprocessados é clara. Adultos registraram um acréscimo de 4,7% ao ano em hambúrgueres e embutidos, enquanto idosos viram esse índice subir para 5,84% ao ano. Embora haja um crescimento concomitante de verduras e legumes (3,3% entre adultos e 1,78% entre idosos), a ascensão dos alimentos ultraprocessados demonstra uma mudança de hábitos que desafia a saúde dessas populações e os coloca em maior risco para doenças crônicas.

Por Que Essa Mudança Acontece? Fatores por Trás da Transformação

A questão da mobilidade surge como um fator chave, facilitando o acesso a esses produtos mesmo em territórios historicamente isolados. A crescente infraestrutura de transporte e a urbanização crescente de áreas antes remotas contribuem para que mercadorias industrializadas cheguem com mais facilidade. Mas a professora Greyceanne Dutra Brito destaca outros pilares que sustentam essa invasão alimentar: “Há fatores socioeconômicos atrelados, pelo baixo custo desses alimentos, mas também pelo apelo publicitário e, ainda, pela utilização de aplicativos de ‘delivery'”. Esse bombardeio publicitário, antes restrito aos centros urbanos, agora alcança as mais diversas comunidades, impulsionado pela digitalização e pela globalização do consumo, alterando percepções sobre o que é ‘moderno’ ou ‘conveniente’.

Desafios do Território e da Soberania Alimentar

Ainda mais profunda, a garantia de uma alimentação saudável para essas populações está intrinsecamente ligada à garantia de seus direitos territoriais. Grande parte dos grupos pesquisados, embora inserida em ambientes rurais, pratica a agricultura familiar e tem no cultivo de seus próprios alimentos a base de sua subsistência e cultura. “Terem o cultivo do próprio alimento seria uma das primeiras coisas a ser trabalhada”, afirma a nutricionista. A chegada massiva de ultraprocessados, muitas vezes vindo das cidades, é um indicativo de que o comércio já se instalou, erodindo a **soberania alimentar** dessas comunidades, que gradualmente perdem o controle sobre o que comem e como obtêm seus alimentos.

Essa expansão do consumo de industrializados é, portanto, um sintoma da precarização do acesso à terra e dos desafios enfrentados na manutenção dos modos de vida tradicionais. A perda de controle sobre o território e os recursos naturais – seja por desmatamento, invasões ou falta de demarcação – impacta diretamente a capacidade de produzir alimentos frescos e diversificados. Nesse contexto, os ultraprocessados, muitas vezes mais baratos e de fácil preparo, tornam-se uma alternativa ‘conveniente’, mas com um alto custo para a saúde individual, coletiva e para a preservação da **cultura alimentar**.

As Consequências para a Saúde e a Cultura

A dieta baseada em alimentos ultraprocessados é uma das principais causas de deficiências nutricionais, como a falta de ferro, fibras, vitaminas e minerais essenciais para o bom funcionamento do organismo. Mais grave ainda, seu consumo frequente está diretamente associado a um maior risco de desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), como diabetes mellitus tipo 2, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares e obesidade. Essas condições representam um enorme desafio para os sistemas de saúde pública, especialmente em comunidades que já enfrentam barreiras geográficas e estruturais de acesso a serviços de saúde adequados, agravando quadros de morbidade e mortalidade.

Além do impacto físico, a substituição de dietas tradicionais tem profundas implicações culturais. A cultura alimentar é um pilar da identidade de cada povo, envolvendo não apenas o que se come, mas como se cultiva, se prepara, se compartilha e se celebra. A erosão desses hábitos ameaça saberes ancestrais, a biodiversidade de espécies cultivadas e, em última instância, a própria resiliência dessas comunidades frente aos desafios externos. É um elo que se rompe com o passado e com a sustentabilidade.

A Necessidade Urgente de Políticas Públicas e Ações Específicas

O estudo da UFCE é um marco por ser o primeiro a avaliar a tendência temporal do consumo alimentar em **povos e comunidades tradicionais** em escala nacional, fornecendo subsídios importantes para a literatura científica e, crucialmente, para o fortalecimento de políticas públicas. “Esses achados podem subsidiar o fortalecimento de políticas públicas voltadas à promoção da alimentação saudável e sustentável”, salienta Greyceanne, reforçando a importância de intervenções baseadas em evidências.

Entre as medidas sugeridas pela nutricionista estão a regulação da comercialização de alimentos ultraprocessados, que poderia envolver desde a rotulagem frontal mais clara dos produtos – alertando para altos teores de açúcar, sódio e gordura – até restrições de marketing e publicidade direcionadas a crianças e populações vulneráveis. Além disso, é fundamental o desenvolvimento de estratégias de educação alimentar e nutricional que sejam culturalmente apropriadas e respeitem as particularidades de cada comunidade, valorizando seus alimentos e práticas culinárias tradicionais como parte de um patrimônio a ser preservado.

Investir na proteção dos direitos territoriais e na sustentabilidade da agricultura familiar nessas comunidades é uma medida preventiva e essencial. Isso não só garante o acesso a alimentos saudáveis, mas fortalece a autonomia, a cultura e a resiliência dos **povos tradicionais**, elementos fundamentais para um Brasil mais justo, saudável e diverso. A proteção ambiental e social é intrínseca à garantia da **segurança alimentar e nutricional** para esses grupos.

Este cenário complexo exige um olhar atento e ações coordenadas do poder público, da sociedade civil e da academia. É imperativo que a defesa da **alimentação saudável** caminhe lado a lado com a proteção dos territórios e dos modos de vida que dão identidade e sentido a uma parte tão rica do Brasil. Para continuar acompanhando análises aprofundadas sobre temas relevantes como este e ter acesso a uma informação de qualidade, atualizada e contextualizada, convidamos você a explorar o RP News. Nosso compromisso é trazer a você os fatos que importam, com a credibilidade e a variedade de temas que você merece, sempre com uma leitura jornalística que vai além do óbvio.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

Leia mais

PUBLICIDADE