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Pelo direito à cultura não capitalista

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Em tempos de eventos culturais cada vez mais caros, por onde nosso direito ao acesso à cultura?

Como amante de livros, feiras, museus, workshops e shows, não posso deixar de observar a discrepância do que o discurso afirma e do que vivemos, de fato.

O acesso à cultura é um direito fundamental assegurado pela Constituição Federal. Nos artigos 215 e 216, está previsto que o Estado deve garantir a todos o pleno exercício dos direitos culturais e o acesso às fontes da cultura nacional e internacional. Esse princípio, em teoria, deveria assegurar que qualquer cidadão pudesse participar de manifestações artísticas, frequentar eventos e consumir produtos culturais sem que barreiras econômicas o impedissem.

Entretanto, a realidade mostra um cenário bem diferente. O preço dos ingressos para shows, especialmente de bandas internacionais, tem aumentado ano após ano. O que antes era uma experiência possível para a classe C, hoje se tornou um privilégio restrito a quem pode arcar com valores cada vez mais altos. Além disso, os custos de deslocamento, alimentação e hospedagem em grandes centros urbanos — onde a maioria desses eventos acontece — ampliam ainda mais a exclusão.

Grandes festivais como Rock in Rio, Monsters of Rock e Bangers Open Air, que nasceram com a proposta de reunir multidões em torno da música, tornaram-se verdadeiros encontros da elite. Os preços praticados, somados às áreas VIP e experiências exclusivas, reforçam a ideia de que cultura é um bem de consumo, e não um direito. Até mesmo shows lendários, como a despedida de Ozzy Osbourne, acabam se transformando em eventos inacessíveis para boa parte da população, criando uma barreira simbólica e econômica que contradiz o princípio constitucional da democratização cultural.

Esse contraste revela uma contradição: de que adianta termos o direito garantido em lei se, na prática, ele não pode ser exercido por grande parte da população? A cultura, que deveria ser um espaço de encontro, diversidade e cidadania, acaba se tornando um bem elitizado. A classe C, que representa uma parcela significativa da sociedade brasileira, vê-se cada vez mais afastada de experiências culturais que poderiam enriquecer sua formação e ampliar sua visão de mundo.

É preciso reconhecer que o acesso desigual à cultura aprofunda a exclusão social. Quando apenas uma parte da população consegue participar de eventos culturais, perpetua-se a ideia de que cultura é luxo, e não um direito. Para mudar esse quadro, são necessárias políticas públicas efetivas: subsídios, programas de democratização cultural, interiorização de eventos e incentivos que permitam que diferentes camadas sociais possam usufruir da riqueza cultural disponível.

A cultura não é supérflua. Ela é parte essencial da cidadania e do desenvolvimento humano. Garantir que todos possam acessá-la é mais do que cumprir um artigo da Constituição: é construir uma sociedade mais justa, plural e consciente.

Por Daniela Manzani

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