Apesar disso, a vigilância continua…
Nesta semana, o Brasil deu um passo histórico ao equiparar a misoginia ao racismo como crime. Esse avanço jurídico reconhece que o ódio contra mulheres não é apenas uma ofensa, mas uma violação grave de direitos humanos. No entanto, enquanto a lei avança, vemos na cultura digital um movimento contrário: o crescimento exponencial de influenciadores ligados à ideologia red pill, que propagam discursos ultrapassados de dominação masculina e reforçam estereótipos já criminalizados.
Esse fenômeno não pode ser entendido apenas como uma questão cultural. Ele se conecta diretamente ao capitalismo contemporâneo. Muitos desses influenciadores transformam preconceito em produto, vendendo cursos e mentorias que prometem fórmulas de poder e dominação. O ódio, nesse contexto, vira mercadoria; a desigualdade de gênero, um nicho de mercado lucrativo.
Como observa o sociólogo Filipe Boni, houve um tempo em que os homens ocupavam protagonismo nas decisões, tanto nas empresas quanto nos lares. Com as crises econômicas e a entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho, esse protagonismo foi abalado. Hoje, o perfil red pill surge como reação a essa perda simbólica de poder. Esses homens acreditam estar “saindo da matrix” e se posicionando contra o capitalismo, mas na prática retrocedem: tornam-se consumidores de um mercado que explora suas inseguranças. Em vez de romper com o sistema, passam a ser uma camada fundamental no funil de vendas de cursos e conteúdos que lucram com a misoginia.
Ainda assim, infelizmente, há uma parcela significativa da população que não compreende a dimensão dos potenciais crimes que a misoginia representa. Nas redes sociais, circula a falácia de que a lei se resumiria a “concordar ou discordar de uma mulher”. Essa interpretação distorce completamente o objetivo da legislação. O que a lei busca é assegurar e proteger as mulheres contra comunidades que crescem baseadas em rancor, ódio e vingança — ambientes que não apenas reforçam desigualdades, mas agora configuram práticas criminosas.
Assim, temos uma contradição clara: o Estado criminaliza a misoginia, a cultura digital a normaliza e o capitalismo a monetiza. O resultado é um ciclo perverso em que discursos de ódio não apenas sobrevivem, mas se transformam em negócios altamente rentáveis. O desafio, portanto, não é apenas jurídico, mas também cultural e econômico: romper a lógica que transforma preconceito em produto e que sustenta um império digital de ideias criminosas.
Por Daniela Manzani