
Este artigo é sobre o bairro nobre, a casa-abrigo e a pedagogia da desumanização. E, sim, algunsepisódios funcionam como radiografias da vida social.
O caso envolvendo a associação de moradores de um bairro nobre de São José do Rio Preto, ao pressionar pela retirada de uma casa-abrigo destinada a adolescentes vítimas de abandono e violência, revela uma ferida mais profunda do que parece: a dificuldade de reconhecer a humanidade quando ela chega ferida. A reação dos moradores não diz respeito aos jovens acolhidos, mas às fissuras de um imaginário que seleciona quem pode existir na paisagem. Quem merece ser visto? Quem precisa ser removido para que não se comprometa a ficção de normalidade que certos bairros insistem em preservar?
A reportagem do Diário da Região, assinada pela competentíssimaJoseane Teixeira, mostrou que moradores do tal bairro nobre divulgaram imagens dos adolescentes e da fachada do abrigo em um grupo de WhatsApp, violando o Estatuto da Criança e do Adolescente e rompendo com o princípio do sigilo que protege crianças marcadas por violência física, sexual, negligência e abandono. Mas a ilegalidade é somente o sintoma. Como lembrava Hannah Arendt, a desumanização começa quando deixamos de atribuir ao outro o direito de aparecer no mundo. O gesto de fotografar e expor adolescentes acolhidos não é somente insensibilidade; é a tentativa de expulsá-los do espaço simbólico da cidade.
Cidade, medo e o processo de desumanização
A declaração do presidente da associação de moradores — “a casa com as criancinhas especiais a gente faz até vista grossa, mas essa febenzinha vai ter que sair” — revela a régua afetiva que estrutura certas sociabilidades. Crianças pequenas, associadas à inocência, ainda cabem no imaginário do bairro. Adolescentes do sexo masculino, ainda que vítimas, são lidos como ameaça. Zygmunt Bauman chamou de “produção de refugo humano” esse movimento que empurra determinadas vidas para fora da moldura de pertencimento. A casa-abrigo, colocada em um bairro de prestígio, perturba essa lógica. Ela desarruma o conforto moral do entorno, lembrando que a cidade não é condomínio e que vulnerabilidade não se resolve com muros altos.
Freud sugeriu que tendemos a rejeitar aquilo que nos lembra nossa própria fragilidade. É mais fácil transformar o outro em incômodo do que admitir que sua dor nos interpela. E Darcy Ribeiro já apontava que as elites urbanas brasileiras historicamente constroem cidades que funcionam como máquinas de desigualdade, nas quais a presença dos pobres é tolerada enquanto não entra em zonas consideradas “protegidas”. O abrigo, nesse contexto, não é ameaça; é ruptura. Ele desloca a vulnerabilidade para um território onde ela não deveria aparecer.
A teoria da desumanização, como formulada por autores como Nicholas Haslam, acerca da negação de traços humanos essenciais a terceiros, e David Livingstone Smith, que vai além e trata do que se pode ser compreendido como “lubrificante social”, mostra que reduzir o outro à condição de perigo ou estorvo é a primeira etapa de um processo psíquico e social que legitima exclusões. Quando moradores de um bairro nobre se mobilizam para expulsar adolescentes que nunca cometeram atos infracionais, mas que sofreram violências severas, não estamos diante de um conflito de vizinhança, mas de um processo de desumanização operando em plena luz do dia.
Quando o Judiciário precisa lembrar o óbvio
A intervenção do juiz Evandro Pelarin, ao solicitar a identificação dos moradores envolvidos e anunciar que oficiará a Polícia Civil, cumpre uma função quase pedagógica: lembrar à sociedade que crianças e adolescentes são sujeitos de direito, e não objetos de paisagem urbana. Para o magistrado, aqueles meninos estão vivendo a rara oportunidade de experimentar um lar de paz. Para parte do bairro, no entanto, eles são ruídos. Arendt nos alertou para o perigo das sociedades que naturalizam a exclusão de indivíduos “supérfluos”. Bauman, por sua vez, lembrou que espaços sociais que tentam expulsar o diferente terminam aprisionados no medo.
Uma cidade não se define pelo valor de seus imóveis, mas pela forma como trata quem perdeu tudo. Ao tentar afastar o abrigo, o bairro envia uma mensagem clara: há vidas admissíveis e vidas inconvenientes. Mas uma comunidade que só aceita o semelhante não é comunidade; é enclave. E enclaves, como mostrou Bauman, não produzem cidadania, somente medo e isolamento.
O que ameaça o bairro não são os adolescentes acolhidos. O que ameaça o bairro — e a cidade — é a disposição de transformar vítimas em estorvo. É a naturalização da ideia de que a vulnerabilidade precisa ser empurrada para longe para que alguns possam dormir tranquilos. Arendt lembrava que o mundo comum só existe quando todos têm o direito de aparecer. Negar esse direito justamente àqueles que mais precisam dele revela o fracasso ético escondido sob o verniz da ordem. Enquanto não reconhecermos que a dor dos meninos acolhidos é parte da nossa história coletiva, continuaremos presos à ilusão de que existe um lado da cidade onde a vida é limpa, ordenada e previsível. Não existe. E talvez o maior gesto de humanidade, agora, seja finalmente admitir isso.