Após um período de seis meses de oscilações e recuos, o setor de serviços no Brasil apresentou um crescimento de 1,2% na passagem de março para abril. O dado, divulgado nesta quinta-feira (11) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) por meio da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), sinaliza uma possível recuperação, ainda que cautelosa, para um dos pilares da economia nacional. Este segmento, que engloba atividades tão diversas quanto transporte, turismo, tecnologia da informação, restaurantes e salões de beleza, é crucial para a geração de empregos e para o Produto Interno Bruto (PIB) do país.
O resultado de abril marca a primeira alta expressiva do setor desde outubro de 2025, quando a expansão foi de 0,3%, levando-o ao seu nível mais alto na série histórica iniciada em 2011. Contudo, os meses seguintes foram marcados por uma instabilidade que manteve o setor em um platô, operando em patamares elevados, mas sem uma direção clara. Em março, por exemplo, o recuo foi de 1,1%, demonstrando a volatilidade do segmento diante das condições econômicas.
O desafio da estagnação e a cautela do IBGE
Apesar do fôlego de abril, a análise do cenário geral ainda inspira cautela. Rodrigo Lobo, analista do IBGE responsável pela pesquisa, ressaltou que, embora o setor tenha alcançado o mesmo patamar de fechamento de 2025, não é possível cravar uma mudança de tendência. “O setor de serviços se mantém operando em patamar elevado, apenas 0,3% abaixo do topo da série, alcançado em outubro de 2025, mas sem uma trajetória muito bem definida, seja ascendente ou descendente”, explicou Lobo.
Essa leitura é fundamental para compreender a dinâmica econômica brasileira. O setor de serviços é altamente sensível a fatores como a taxa de juros, a inflação e a confiança do consumidor. Com a taxa Selic em patamares elevados para conter a inflação, o consumo é naturalmente impactado, e a decisão de gastos com serviços – especialmente aqueles considerados não essenciais – tende a ser adiada. O acumulado de 12 meses, que mostra uma expansão de 2,9%, e a comparação anual com abril de 2025, com crescimento de 1,9%, indicam uma resiliência de longo prazo, mas a ausência de uma trajetória clara no curto prazo sugere que o setor ainda busca estabilidade.
Transportes e a influência das passagens aéreas
A recuperação de abril foi amplamente impulsionada pelo desempenho positivo em todos os cinco grandes grupos de atividades investigados pelo IBGE. O maior destaque, no entanto, ficou com o segmento de transportes, armazenagem e correio, que tem o maior peso (36,4%) no setor de serviços brasileiro. Este grupo registrou um avanço de 0,9% no mês.
Dentro do segmento de transportes, o transporte aéreo de passageiros foi o grande catalisador, com uma alta de 7% em abril. Esse avanço reverte uma sequência de dois resultados negativos, quando o setor havia acumulado uma perda de 16,6% entre fevereiro e março de 2026. A explicação para essa guinada está diretamente ligada à variação dos preços. “Em fevereiro e março houve avanço de 18,4% nos preços [das passagens aéreas], enquanto em abril houve queda de 14,45% desse subitem do IPCA”, detalhou Rodrigo Lobo. A redução nos custos das passagens estimulou a demanda, levando a um aumento de 2,6% no volume de transporte de passageiros em abril. Em contrapartida, o volume do transporte de cargas apresentou uma leve retração de 0,9%, um sinal que pode indicar alguma cautela na atividade industrial ou comercial.
Outras atividades em destaque
Além dos transportes, outras categorias também contribuíram para o resultado positivo geral. Os serviços prestados às famílias cresceram 1,4%, indicando um possível aumento nos gastos com lazer, beleza e alimentação fora de casa, o que pode refletir uma melhoria na confiança do consumidor ou a necessidade de repor o consumo de serviços que havia sido adiado. Informação e comunicação (0,5%) e serviços profissionais e administrativos (0,4%) também tiveram altas, acompanhando a digitalização da economia e a demanda por soluções corporativas. O grupo de “Outros serviços” foi o que apresentou a maior variação positiva, 2,2%.
O renascimento do turismo e seu impacto local
Um dado particularmente animador para a economia regional e nacional é o desempenho do Índice de Atividades Turísticas (Iatur). Em abril, o Iatur registrou um robusto crescimento de 4,1% em relação ao mês anterior, e acumula um avanço de 2,7% em 12 meses. O mais significativo é que as atividades de turismo estão 11,2% acima do patamar pré-pandemia de covid-19 (fevereiro de 2020), demonstrando uma recuperação sólida e duradoura do setor.
O turismo, que reúne 22 das 166 atividades de serviços investigadas na pesquisa, incluindo hotéis, agências de viagens e buffets, é um importante gerador de empregos e renda para diversas localidades. Embora o índice ainda esteja 2,2% abaixo do maior nível já alcançado em dezembro de 2024, sua trajetória ascendente indica um setor aquecido, impulsionado tanto pelo turismo doméstico quanto pela retomada do fluxo internacional. Os dados regionais, que abrangem 17 unidades da federação (como São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Minas Gerais), fornecem um panorama detalhado da força do turismo em diferentes partes do país, reforçando sua capacidade de dinamizar as economias locais.
Perspectivas futuras e o papel dos serviços na economia
O crescimento do setor de serviços em abril, liderado pelos transportes e pelo turismo, é uma notícia bem-vinda e pode aliviar as preocupações com uma desaceleração econômica mais acentuada. Sendo um dos maiores empregadores do país, o bom desempenho dos serviços tem um efeito multiplicador, impactando a renda, o consumo e a confiança dos agentes econômicos. Contudo, a análise de Rodrigo Lobo serve como um lembrete de que a economia brasileira ainda navega em águas incertas, e um único mês de alta não define uma nova rota de crescimento sustentado.
Fatores como a inflação persistente em outros segmentos, a trajetória da taxa de juros e o cenário político-econômico global continuarão a influenciar o comportamento do setor. A capacidade de manter os preços sob controle, como visto com as passagens aéreas, será crucial para sustentar a demanda e garantir que a recuperação não seja apenas um lampejo, mas o início de uma tendência mais consolidada. Acompanhar os próximos resultados do IBGE será fundamental para entender se o setor de serviços, enfim, encontrará uma trajetória ascendente e contribuirá de forma mais robusta para o desenvolvimento do Brasil.
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