O cenário dos investimentos em criptoativos no Brasil passa por uma transformação significativa, com as stablecoins, moedas digitais projetadas para manter um valor estável atrelado a moedas fiduciárias como o dólar ou o real, consolidando-se como a espinha dorsal das operações declaradas à Receita Federal. Dados recentes revelam que esses ativos já respondem por cerca de 80% do volume negociado, um percentual que sublinha não apenas uma mudança de perfil no mercado nacional, mas também um amadurecimento e uma busca por estabilidade em um ecossistema conhecido pela sua volatilidade.
Essa ascensão das stablecoins ocorre em um momento crucial, às vésperas da entrada em vigor da DeCripto, a nova plataforma de declaração de criptoativos instituída pelo Fisco brasileiro. A ferramenta, que se tornará obrigatória a partir de julho, representa um passo decisivo na regulamentação e fiscalização do mercado, alinhando o país aos padrões internacionais de transparência e combate a ilícitos financeiros. Compreender a dominância das stablecoins é, portanto, fundamental para antever os desdobramentos desse novo ambiente regulatório.
O Crescimento por Trás da Estabilidade
As stablecoins são, por definição, criptomoedas desenvolvidas para mitigar a extrema volatilidade inerente a outros ativos digitais, como o Bitcoin e o Ethereum. Elas buscam replicar o valor de uma moeda tradicional, oferecendo aos usuários a segurança de um ativo digital que não sofre grandes flutuações. Na prática, uma stablecoin atrelada ao dólar, por exemplo, tenta manter seu valor próximo a US$ 1, enquanto uma vinculada ao real acompanha a cotação da moeda brasileira. Essa característica intrínseca de estabilidade tem sido um motor para sua adoção em larga escala.
A utilidade das stablecoins vai além da mera proteção contra a oscilação de preços. Elas são amplamente utilizadas para a movimentação de recursos, facilitando transferências internacionais de forma mais rápida e com custos potencialmente menores do que os sistemas bancários tradicionais. Servem também como uma ponte entre o mundo das moedas fiduciárias e o universo cripto, permitindo que investidores entrem e saiam de posições em outros criptoativos sem ter que retornar ao sistema bancário tradicional a cada operação. Essa versatilidade e a segurança percebida as tornaram indispensáveis para muitos usuários no Brasil.
A Virada de Chave no Mercado Brasileiro
A ascensão das stablecoins no Brasil não é um fenômeno recente, mas sim o culminar de uma trajetória de crescimento acelerado. Dados históricos da Receita Federal revelam que, de um espaço secundário, esses ativos se tornaram predominantes em poucos anos. Entre agosto de 2019 e dezembro de 2025, foram declarados aproximadamente R$ 1,58 trilhão em operações de compra e venda dos principais criptoativos. Desse montante impressionante, cerca de R$ 1,13 trilhão — o equivalente a 71,7% — correspondeu exclusivamente às stablecoins.
A participação mensal desses ativos tem se mantido consistentemente elevada. Em 2019, as stablecoins representavam apenas 3,5% do volume mensal declarado. Esse número disparou, atingindo 79,7% em 2022 e alcançando um pico de 91,5% em 2023, com um ápice mensal de 94,3% em julho daquele ano. Mesmo com a valorização de outros criptoativos em 2024 e 2025, a presença das stablecoins permaneceu robusta, oscilando entre 76% e 80% do volume total. O volume financeiro também acompanhou essa trajetória, com novembro de 2025 registrando R$ 39,7 bilhões em operações declaradas, o maior valor mensal da série histórica.
Liderança Incontestável da USDT
Dentro do segmento de stablecoins, a USDT, emitida pela Tether e atrelada ao dólar americano, detém uma fatia esmagadora do mercado brasileiro. Os dados do Fisco indicam que ela concentrou quase nove em cada dez reais movimentados, respondendo por 88,7% de todo o volume declarado entre 2019 e 2025, totalizando aproximadamente R$ 1 trilhão. Na sequência, aparecem a USDC, também vinculada ao dólar, com 7,1% de participação, e a BRZ, uma stablecoin lastreada em real, com 3,4% do volume analisado. A preferência por ativos dolarizados reflete não apenas a busca por estabilidade, mas também uma estratégia de proteção contra a inflação e a desvalorização do real, comum entre os investidores brasileiros.
DeCripto: A Nova Era da Transparência Fiscal
A partir de julho, a DeCripto se tornará uma realidade incontornável para todos os envolvidos com criptoativos no Brasil. Instituída pela Instrução Normativa RFB nº 2.291, de novembro de 2025, esta plataforma cria um novo modelo de prestação de informações sobre transações, alinhando o Brasil ao padrão internacional de transparência da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), conhecido como Crypto-Asset Reporting Framework (CARF). O objetivo é claro: ampliar o controle sobre operações com ativos digitais, fortalecendo o combate à evasão de divisas, à lavagem de dinheiro e ao financiamento de atividades criminosas, garantindo maior segurança e integridade ao sistema financeiro nacional.
Um ponto crucial da nova obrigação é a extensão da fiscalização a prestadoras de serviços de criptoativos sediadas no exterior. Essas empresas, desde que direcionem seus serviços ao mercado brasileiro, passarão a ter a responsabilidade de informar as operações realizadas com clientes no País, conforme previsto na Lei nº 14.754/2023. Isso fecha uma lacuna regulatória importante, que permitia que muitas transações escapassem da fiscalização. A Receita Federal reitera que a obrigação de prestar informações é independente da existência de tributos a pagar, configurando-se como uma medida fundamental para a transparência do mercado.
Implicações para Investidores e o Futuro do Mercado
A dominância das stablecoins e a chegada da DeCripto desenham um futuro mais regulado e transparente para o mercado de criptoativos no Brasil. Para o investidor, isso significa um ambiente potencialmente mais seguro, com menor risco de fraudes e uma maior formalização. No entanto, exige também uma atenção redobrada às obrigações declaratórias. A crescente presença das stablecoins indica uma maturidade do mercado, onde a utilidade e a estabilidade começam a se sobrepor à especulação desenfreada, incentivando o uso desses ativos para finalidades financeiras cotidianas e estratégicas, como remessas ou proteção de valor.
O desafio para as plataformas de criptoativos, tanto nacionais quanto estrangeiras, será a adaptação a essas novas exigências. Aquelas que não se adequarem podem enfrentar sanções e perder espaço no competitivo mercado brasileiro. Por outro lado, a formalização e a clareza regulatória podem atrair um número ainda maior de investidores institucionais e usuários que antes se sentiam inseguros diante da ausência de regras claras. O Brasil se posiciona, assim, como um dos países que mais avançam na regulamentação do setor, buscando um equilíbrio entre a inovação tecnológica e a segurança jurídica e fiscal.
A ascensão das stablecoins a 80% dos ativos declarados e a iminente implementação da DeCripto não são apenas notícias; são marcos que redefinem a relação entre o cidadão brasileiro, a inovação financeira e o Estado. Manter-se informado sobre essas transformações é crucial para navegar com segurança neste novo cenário. Para análises aprofundadas, contextualização dos fatos e a informação relevante que impacta seu dia a dia, continue acompanhando as publicações do RP News, seu portal de informação comprometido com a qualidade e a credibilidade jornalística.