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Tratamento Humanizado Ainda é o Grande Desafio na Luta Antimanicomial no Brasil

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© Fernando Frazão/Agência Brasil

Nesta segunda-feira, quando se celebra o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, o cenário da **saúde mental** no Brasil é marcado por um paradoxo: ao mesmo tempo em que a nação comemora os 25 anos da **Lei 10.216/2001**, conhecida como **Lei Antimanicomial**, especialistas apontam que o **tratamento humanizado** ainda representa um desafio monumental. Embora o país tenha trilhado um caminho de avanços significativos no cuidado de pessoas com **transtornos mentais**, as barreiras para uma assistência plena e digna persistem, exigindo um olhar atento e uma ação contínua.

As Raízes da Luta: Do Manicômio à Reforma Psiquiátrica

Para compreender a profundidade do desafio atual, é preciso revisitar a história. A data de 18 de maio não é aleatória; ela remonta a 1987, quando trabalhadores da **saúde mental** se reuniram em Bauru (SP) em um congresso que se tornou um marco. Naquele período, o Brasil ainda emergia da ditadura, e os **manicômios** eram sinônimos de tortura, abandono e desumanização, onde a loucura era tratada com isolamento e violência, não com cuidado. Aquele encontro de Bauru plantou as sementes da **reforma psiquiátrica** brasileira, um movimento que visava a profunda transformação do modelo de assistência, substituindo a lógica do aprisionamento pela da inclusão e do respeito aos **direitos humanos**.

Foi nesse contexto de efervescência social e busca por dignidade que, em abril de 2001, a **Lei Antimanicomial** foi sancionada. Ela representou um divisor de águas, estabelecendo que a internação psiquiátrica deveria ser o último recurso e priorizando a oferta de **tratamento humanizado** em serviços de base comunitária. O objetivo era claro: desconstruir a cultura manicomial e promover a **desinstitucionalização**, reintegrando as pessoas à sociedade e garantindo-lhes o direito à cidadania plena. O Conselho Federal de Psicologia (CFP) e outras entidades têm sido pilares nessa defesa, lutando pela continuidade e aprofundamento dessa reforma.

A Rede de Atenção Psicossocial (Raps): Um Modelo Essencial

A principal ferramenta da **reforma psiquiátrica** para concretizar o **tratamento humanizado** é a **Rede de Atenção Psicossocial (Raps)**. Estruturada para oferecer cuidado abrangente e territorial, a Raps abarca uma série de serviços que buscam atender às diversas necessidades dos usuários. Os **Centros de Atenção Psicossocial (Caps)** são o coração dessa rede, oferecendo atendimento diário, medicamentos psicotrópicos, atividades terapêuticas como oficinas de arte e encontros em grupo ou com a família. Eles funcionam como porta de entrada e centro articulador do cuidado, evitando internações desnecessárias e promovendo a autonomia.

Além dos Caps, a Raps inclui as Unidades de Acolhimento (UAs), os Serviços Residenciais Terapêuticos (SRTs) e o Programa de Volta para Casa (PVC). Os SRTs e o PVC são cruciais para pacientes que passaram por longas internações psiquiátricas e que, muitas vezes, não têm laços familiares ou sociais. Esses dispositivos oferecem moradia e suporte para a reinserção social, rompendo com o ciclo de abandono pós-hospitalar. Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) também integram a rede, garantindo o atendimento a crises psiquiátricas agudas. A filosofia da Raps é clara: o cuidado deve ser próximo, multidisciplinar e focado na reinserção, não na segregação.

O Calcanhar de Aquiles: A Controvérsia das Comunidades Terapêuticas

Contudo, o avanço da Raps e o ideal do **tratamento humanizado** enfrentam um obstáculo significativo: a proliferação e a atuação das **comunidades terapêuticas** (CTs). Destinadas, em sua maioria, a pessoas com problemas relacionados ao uso abusivo de álcool e outras drogas psicoativas, essas instituições são alvo de severas críticas. Ana Paula Guljor, presidenta da Associação Brasileira de Saúde Mental (Abrasme), e outras autoridades da área, apontam que muitas CTs **reproduzem práticas manicomiais**, contrariando o espírito da **reforma psiquiátrica**.

O cerne da questão reside na sua ausência de integração ao **Sistema Único de Saúde (SUS)** e ao **Sistema Único de Assistência Social (Suas)**. Operando em um limbo legal, sem regulamentação adequada e propósitos bem definidos na prática, as CTs frequentemente recebem verba pública que, conforme a Abrasme, é “difícil de se rastrear”, caracterizando uma “privatização dos serviços” e uma distorção do marco regulatório. As denúncias de violações de **direitos humanos**, incluindo restrição de liberdade, trabalho forçado e falta de acompanhamento adequado, são frequentes e graves. Relatórios do Ministério Público Federal (MPF) e posicionamentos de cinco conselhos nacionais — Saúde, Assistência Social, Direitos Humanos, Direitos da Criança e do Adolescente e Política sobre Drogas, além do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura — reforçam a preocupação com a ausência de fiscalização e a qualidade do cuidado prestado.

Desafios Adicionais e a Lógica Punitivista

Além da questão das CTs, outros desafios impedem a plena realização do **tratamento humanizado**. A subfinanciamento da **Rede de Atenção Psicossocial** é um deles, dificultando a ampliação de serviços e a contratação de profissionais qualificados. A falta de interlocução do governo federal com os movimentos sociais e organizações atuantes na causa também é apontada como um entrave, assim como a escassez de espaços de acolhimento e encaminhamento para quadros mais comuns, como ansiedade e depressão, evidenciando uma lacuna na atenção primária em **saúde mental**. Há ainda o estigma que cerca os **transtornos mentais**, que muitas vezes dificulta a busca por ajuda e a aceitação social.

Outro ponto crítico é a influência do punitivismo, tão presente na política de segurança pública, sobre as políticas de **saúde mental** e drogas. “Em São Paulo, se propõe a instalação de câmeras nas antessalas, nos halls das instituições que atendem pessoas usuárias de drogas, você restringe o acesso”, reflete Ana Paula Guljor. Essa lógica, que prioriza o controle e a segregação em detrimento do cuidado e da redução de danos, é um retrocesso e contraria os princípios da **Luta Antimanicomial**. Felizmente, existem iniciativas que mostram outro caminho, como o Programa De Braços Abertos, em São Paulo, lembrado por Moacyr Bertolino, da Frente Estadual Antimanicomial de SP, como um modelo de sucesso na abordagem a usuários de drogas em situação de vulnerabilidade, focado na dignidade e na **reinserção social**.

O Caminho Adiante: Fortalecer o Cuidado e a Cidadania

A luta por um **tratamento humanizado** e pela consolidação da **reforma psiquiátrica** é um compromisso contínuo. Embora o governo tenha sinalizado com a revisão de diretrizes e normas de financiamento da Raps, além de ações de transparência em relação às CTs, é fundamental que haja um investimento robusto na **Rede de Atenção Psicossocial**, na fiscalização rigorosa das instituições privadas e na promoção de uma cultura de respeito e dignidade. A **saúde mental** é um direito fundamental, e sua garantia passa pela valorização da ciência, da ética e, acima de tudo, da humanidade.

A compreensão desses desafios e a defesa de um sistema de cuidado que priorize a pessoa em sua integralidade são essenciais para que o Brasil avance de fato na **Luta Antimanicomial**. Acompanhe o RP News para se manter sempre informado sobre temas relevantes como este, que impactam diretamente a vida de milhões de brasileiros e a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva. Nosso compromisso é com a informação de qualidade e o aprofundamento das discussões que importam.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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