Quem observa a rotina de estudos em uma sala de aula de um cursinho popular na Ceilândia, região administrativa do Distrito Federal, dificilmente imagina a complexidade da trajetória percorrida por alguns dos estudantes até chegarem à preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio. Entre os milhares de inscritos na edição de 2026, histórias de superação e redes de apoio comunitário evidenciam como a educação funciona enquanto instrumento de transformação social no Brasil.
Este cenário é ilustrado pela jornada de Raimundo dos Santos Nascimento, carioca de 62 anos que integra o grupo de candidatos mais velhos do exame. Vindo para o Distrito Federal há mais de uma década, Raimundo enfrentou um período de aproximadamente seis anos em situação de rua no Plano Piloto. Sua retomada de perspectiva e reinserção social começaram a tomar forma por meio de iniciativas públicas e assistenciais, como o Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua e a Escola de Meninos e Meninas do Parque, onde concluiu o ensino fundamental. Agora, o objetivo é claro: conquistar uma vaga no curso de psicologia da Universidade de Brasília.
O papel transformador da rede nacional de cursinhos comunitários
O espaço que acolhe Raimundo é o projeto Jovem de Expressão, iniciativa que há 17 anos oferece preparo gratuito para o Enem e para o Programa de Avaliação Seriada da UnB. A unidade faz parte da Rede Nacional de Cursinhos Populares, um esforço coletivo que atende dezenas de milhares de estudantes oriundos da educação pública em todo o país. O foco do atendimento prioriza pessoas negras, indígenas, quilombolas, pessoas com deficiência e integrantes de famílias de baixa renda, que encontram na iniciativa uma alternativa viável diante das barreiras financeiras e estruturais do sistema educacional.
A importância dessas iniciativas reside na capacidade de democratizar o acesso ao ensino superior para jovens e adultos que, muitas vezes, precisam conciliar jornadas exaustivas de trabalho com o sonho de estudar. A exclusão digital, a falta de recursos para material didático e a distância física das grandes instituições privadas de ensino são obstáculos cotidianos que tornam o cursinho comunitário não apenas um local de reforço escolar, mas um verdadeiro centro de inclusão social e cidadania.
Histórias que desafiam o tempo e a desigualdade
A sala de aula reflete a pluralidade de um Brasil que busca reescrever seu futuro por meio dos estudos. A diarista Márcia Regina Carvalho Damasceno Dias, por exemplo, havia interrompido os estudos há duas décadas. Motivada pela filha, hoje estudante universitária, decidiu retornar às salas de aula para cursar nutrição, enfrentando o cansaço de uma rotina pesada de trabalho de segunda a sábado. No mesmo ambiente está a caixa de supermercado Gilmara Pereira Braga, de 47 anos, que superou o pavor histórico da matemática e hoje planeja cursar psicologia para atuar com educação especial, buscando preencher lacunas de inclusão que observa desde cedo na sociedade.
Já entre os mais jovens, a perspectiva periférica ganha voz na figura do produtor musical Miguel Lacerda, de 20 anos. Estudante do cursinho há dois anos, ele ressalta que a proximidade geográfica e a gratuidade da iniciativa representam a única via viável para competir em igualdade de condições no exame nacional. Para esses alunos, a preparação vai muito além de fórmulas matemáticas ou regras gramaticais; trata-se da construção coletiva de um direito fundamental que historicamente lhes foi negado.
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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br







